quinta-feira, 13 de maio de 2021

Nosso inferno brazilis e a piada das latas (republicação)




É dia de chuva na cidade. Dias de chuva geralmente nos põe melancólicos prá danar. Dias de recolhimento, meditação, preguiça, caldos quentes. Na teoria. Na prática das ruas centrais e arrabaldes são horas de apreensão, vigilância e esforço. Muita força física empregada na redução dos danos provocados pelas forças da natureza. Força primal que desencadeia outras forças, gerando um efeito dominó. Torrente que descamba no desespero e na desesperança. 

O Brasil e suas cores de bandeira esmaecidas… Uma nação que ilude os crédulos e distraídos cidadãos. Uma nação, cujo sentimento cívico é manipulado por espertalhões e parasitas. Uma nação a que falta o sentido de organização, logística social, sensibilidade pátria e frátria. O exemplo recente da expansão da pandemia e a patuscada governamental pela aquisição de vacinas, a propaganda da crendice em torno de um medicamento inócuo são a nossa herança, nosso cotidiano, nosso legado. Produzi o texto a seguir há um tempo, lancei no blog em 2015, Só me referi as nossas mazelas permanentes.



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Muita gente deve ter dado risadas com uma piada sobre latas que traçava um hilário comparativo entre um inferno de ilustre nação e o nosso. A anedota, para quem não conhece, narra o dilema posto a duas almas recém- desencarnadas em sua chegada ao salão celestial: a escolha entre o diabo e a caldeirinha das duas nações.

A graça ficava no fato de que, na hora da triagem condenatória, caso escolhesse o inferno brasileiro, o infeliz era obrigado a comer três latas de excrementos por dia, enquanto ao “felizardo” do inferno rico caberia a mixaria de uma lata diária. Piadas que envolvem excrementos tem o estranho poder de provocar risadas espontâneas.

A religiosidade na entrega das latas nas duas filiais das hostes do capeta era o diferencial. A graça e a picardia da estória em si. A embalagem e entrega do produto de indigesto consumo no inferno americano era pontualíssima. Nele, uma lata diária era uma lata diária.

No nosso, ao contrário, se revelava um pouco de nossa balbúrdia estrutural. Um dia faltava lata, num outro faltava merda e, na maioria dos dias, quem não comparecia ao expediente do trabalho sujo era o entregador. Moral da história: melhor era viver no inferno brasileiro, pois comer merda ainda vá lá, a regularidade do ato é que é pau..

As anedotas como esta revelam enormidades sobre nossa capacidade de rirmos de nós mesmos. A seu modo, revelam um potencial de autocriticidade mordaz.

Por outro, parecem exaltar virtudes em pontos onde somos visivelmente deficientes. Algo como se afirmar que as coisas abaixo nas terras brazilis estão fadadas a serem assim mesmo. E que, portanto, conformados, é bom encaixarmos essa situação em nossa mentalidade mediana, rirmos e apenas sermos conscientes de nossas mazelas.

Revela, por fim, infelizmente e sobremaneira, a cruel totalidade de nossas falhas estruturais e estruturantes. O inferno lá descrito é nossa imagem no espelho. Cagados e cuspidos, nem na entrega rotineira da ração malcheirosa conseguimos ser eficientes. Nesse ponto, diria que a piada estaria completa caso enaltecesse também nosso papel de mazeladores.

A piada dos infernos deveria nos servir para gerar indagações. A princípio, bem ou mal, dispomos de estruturas de serviço, de gerenciamento, de participação, de locomoção. Dos mecanismos de elaboração de políticas públicas às estruturas de pavimentação de ruas e logradouros, passando por serviços de saúde, educação e segurança. Temos a estrutura, a lei, os planos, o material humano, as ações cotidianas.

Se temos tudo isso, o que nos faltaria, então? Acho que além do riso autocrítico temos que rever a noção e extensão de nosso inferno. Dos enlatados à base de esterco humano que somos instados a engolir como ração diária e que produzimos sistemática e profusamente.

Tomemos o exemplo de nossas cidades, independente de seus limites e extensão, diante das chuvas de fim de verão. Atoleiros, calçamentos revirados, alagamentos em bairros “nobres”, deslizamentos em bairros pobres, surto de dengue e chikungunya, filas de crianças e idosos em postos de saúde, atendentes mal-humorados e médicos mal formados e sem sensibilidade social e humana.    

Por aqui, convenhamos, falta a cobrança mínima de regularidade por parte dos entregadores de nossas sagradas latas diárias. A falta-nos a seriedade, falta-nos governança, falta-nos o equilíbrio dinâmico de consertar as coisas antes que se tornem metastáticas, falta-nos participação e cobrança.

Infraestrutura de vias, estrutura de transporte público, inoperância das empresas que administram serviços básicos como água e saneamento básico. Sem contar, claro, com a indefinição de responsabilidades. Federação, Estado, prefeituras, diretamente ou via autarquias, não tem uma cartilha definida de responsabilização. O jogo de empurra serve ao propósito de minorar a urgência urgentíssima de certas providências.

 Se formos perguntar, porém, a algum responsável, fatalmente eles creditarão a culpa a São Pedro e sua incontinência pluvial. O tempo e a hora de atuação não são respeitados por aqui. No final, sobra para nós a impressão de que se um dia falta o conteúdo da lata, noutro a própria lata e em outros o entregador falta ao trabalho é que nós, sem percebermos, vivemos é mesmo dentro da lata compondo, junto com conteúdo, um cenário de situações indigestas, e penosamente compartilhadas.


por Edson de França    


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