Penso que uma ótima limpeza nas redes sociais começaria com um dê-se à "César ao que é de César", em outras palavras, ser radical e sanguinário para com os limitados e impostores, valorizando estritamente só aquele, aquela ou aquilo que o mereça realmente.
Em miúdos, acatar só o que deixe um mínimo traço positivo para nosso consumo, deleite, up grade de conhecimento ou orientação sadia. Que não signifique tão somente uma mera, fatal e suicida perda de tempo.
Primeiramente, afirmo sem medo, porque a grande maioria da fauna da rede é composta por esnobes e prepotentes limitadíssimos em prosa, em verbo e em poesia de existência. Portanto, não devo seguir quem se promove ao extremo, sem me entregar o que ousa prometer.
Por outro lado, os aleatórios, todos nós que exercemos a “cidadania” por meio da Internet, devemos ser olhados com suspeição. Fora nossos próximos de convívio e tete-a-tete, a quem sempre podemos encarar, aqueles outros sem berço, terço, glórias mínimas a contar, versões ou explicações críveis devem ser sumariamente ignorados.
Se a lição queridinha é "ligar o foda-se". Fodam todos.
Em tempo. Acho que o espaço é livre e aberto à participação. Advogo que todos, indiscriminadamente, devem estar plugados. Mas consciência e coerência, infelizmente, não nasceu pra qualquer um. Os amostradinhos e sem noção, como em qualquer outra façanha, tentam ocupar a cena e encher o saco. Chatos só se entendem com pentelhos. Portanto. Desembarquem da minha genitália.
Escrevo crônicas - assim como as escreveram Rubem Braga, Rachel de Queirós, Paulo Mendes Campos, Walter Galvão, Vinícius de Morais, Antônio Maria, Machado de Assis, Carlos Drumond de Andrade, Clarice Lispector, Bráulio Tavares, João do Rio, Nelson Rodrigues, Nathanael Alves, Fernando Sabino.
Assim como ainda escrevem Gonzaga Rodrigues e Bráulio Tavares e tantos outros mais. Não me comparo, contudo, escrevo sem a mesma maestria, gênio, fôlego ou inspiração.
Penitencio-me pela absoluta falta de talento. Só escrevo. O que não me serve para desfilar junto a esse batalhão. Junto a eles, nem ousar ostentar a farda de recruta. Muito menos ostentar alguma medalha por um ou outro sucesso extemporâneo.
Compus um parágrafo remetendo aos grandes da crônica nacional para dizer, em forma de conclusão: se qualquer um deles tivesse um blog, taquí um cronista/leitor que os seguiria. Sabe porque? Porque gosto do gênero, primeiramente. Segundo, pela altura de suas vozes, pelo alcance de seus pensamentos, pela genialidade de sua escrita, pela intromissão poética nas tranças aleatórias do cotidiano. Coisa, essa última, totalmente em desuso nestes tempos de cronistas vazios.
Atravessamos um deserto de sequidão de ideias aproveitáveis e profusão de pensamentos e línguas aligeiradas. Todos detém o “lugar de fala” como numa feira livre, mas o produto apregoado não detém qualificativos para um consumo apreciável. Vivemos, isto sim, uma era de ocasionais tiktokers, cujo shape físico ou movimento involuntário da mente são mais que suficientes para startar likes. O que não é suficiente é o peso das ideias proferidas. O hábito de consumir esse mix de “mitagens”, nos acompanha desde longe.
Aprendemos, desde os anos 70, a valorizar nulidades. Penso que os EUA começaram bem antes de nós com a “pedagogia aplicada” patrocinada pela TV. A massividade promovida pela inserção da telinha no cotidiano, facultou a construção de “mitos”. Mitos da novela, atores “exclusivamente” talhados para a TV, jornalistas queridinhos e super-stars da música ligeira: cardápio que fomos obrigados a engolir na fonte e consumi-los por meio de todas as mídias complementares.
Claro que neste cenário haveria de surgir alguns “influencers do absurdo”, todos acometidos da “Síndrome do Idiota Confiante”. Sistematizada em 1999, a síndrome explicaria o comportamento de “pessoas que ignoram a própria ignorância e se sentem extremamente confiantes sobre si mesmas, ainda que sem motivos reais para isso carecem de autocrítica incapacidade de conhecer suas incompetências e incapacidade de reconhecer a competência de outras pessoas”.
Seu modus costuma intentar “invalidar seu interlocutor seja por meio de deboche, ofensas ou por respostas tão absurdas que "mitam. Quanto maior a falta de conhecimento, maior será a demonstração de confiança”.
São falsos profetas: sabem professar, mas não têm a mínima ideia sobre o que estão falando. Lamentavelmente, esses idiotas confiantes vem se proliferando de forma endêmica nas redes sociais: é o palco perfeito para ganhar um público incauto e acrítico que acaba acreditando no subgênero de conhecimento – público este que, antes das redes sociais, ficava restrito a meia dúzia de desavisados.
por Edson de França
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