A forte expressão é utilizada pela mídia cada vez que as autoridades de fiscalização do trabalho desmantelam uma senzala contemporânea. Em pleno século 21, eras a distância do chamado período escravocrata, elas (r)existem como uma chaga social. Para a imprensa a expressão é apenas um clichê apelativo; para aqueles com alguma sensibilidade, trata-se de um verdadeiro escárnio diante dos avanços da civilização. Estes mesmos que incluem entre suas principais bases a democracia, o respeito irrestrito aos direitos humanos e o combate às vilanias.
A concepção da senzala “moderna” se utiliza de uma estratégia que une pobreza e necessidade econômica, submissão e servidão com vistas à exploração do trabalho. Quem não leu Karl Marx ou se empanturre do medo insano do “fantasma do comunismo", talvez jamais vá entender as categorias presentes na construção da riqueza capitalista, na qual o “trabalho”, a força do braço, é elemento fundamental. Por isso mesmo ser artigo tão cobiçado por espertalhões e exploradores inumanos.
Por esse prisma quem compra a “força de trabalho” em contrato, leva além do corpo, a saúde, os ânimos, a administração do tempo e dos destinos do infeliz “vendedor”. Ademais, para o processo ser lucrativo, quanto maior disponibilidade dela no mercado e quanto menos depender de investimentos mais compensatória é. Mão de obra barata é fundamental para a saúde do sistema. Se beirar o “custo zero” e o “animal de força” ficar “devendo à casa”, o ouro dos dentes do algoz chegam a reluzir.
A estratégia escravista moderna, no caso explícito das senzalas desmanteladas, é bem assim. Sabendo da penúria porque passam exércitos de homens por esses brasis a fora, eles saem à caça. Os muitos que alimentam o “sonho miúdo” de ter um emprego, ganhar algum para matar a fome, sentir-se útil e, sobretudo, cumprir a missão de dignidade cristã são os alvos. Uma vez seduzidos, são retirados de seu ambiente natural sob a promessa de trabalho e remuneração compatível com seus esforços e esperanças.
Retirados de seu habitat, os voluntários começam a sentir na pele literalmente a situação de degredo. O trabalho escravo na contemporaneidade se revela como trabalho forçado, jornadas acachapantes, condições degradantes de vida e moradia e, finalmente, a servidão por dívidas. Esse caso de limitação de liberdade é o que mais, escandalosamente, a equipara a escravidão clássica.
Os casos das senzalas que mancham os processos produtivos de alguns ramos, sobretudo do chamado agribusiness, são escandalosos quando noticiados. Amiúde, utilizam-se de certa sutileza pro ardil de constranger economicamente e, consequentemente, limitar a liberdade de locomoção do trabalhador. Falamos até aqui de similares das clássicas “senzalas”, não é? E você aí, já vislumbrou os condicionantes, ou cordéis, que te confinam nas senzalas a céu aberto, iludido do desfrute dessa tal liberdade?
Liberdade é um termo controverso. Quem é realmente livre diante de qualquer sistema econômico? No sistema do capital é fato que quanto mais pobre for a alma mais condicionada estará à servidão. Quanto mais tentado a “pertencer” ao mundo, por meio do abuso da sede por bens de consumo, mais escravo se torna. Para simples aquisição de alguns bens denotatórios de “pertencimento” à sociedade vende-se a alma, a consciência e dá-se docilmente os pulsos aos grilhões. A cada propaganda de TV com ofertas e vantagens em empréstimos ou assédio de financeiras a funcionários públicos sinto a presença sutil da sujeição humana. Grilhões palpáveis prendem as mãos, os imateriais amarram e distorcem a mente.
por Edson França
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