Em tempos relativamente antigos, por ali pelos 70’s, nossa cultura midiática foi pródiga a produzir rostos marcantes. Tal qual ocorria com os “caras” do futebol que ilustravam figurinhas colecionáveis, os ídolos do cast televisivo - predominantemente da Globo - também contribuíam com suas efígies para álbuns coloridos. Deleite e disputa para os fãs mais sectários.
Acredito que os álbuns, ao lado das revistas de fofocas, vendiam como água. Pelas periferias, até quem não tinha televisão em casa, era tomado pela febre de consumo de novelas, galãs e galoas. na tela ou nas figurinhas e posters. Os primórdios das telenovelas - em pleno período de popularização da TV - foi impulsionado por esses pequenos artifícios que faziam parte da construção das “celebridades” de então, contribuindo para que uns poucos caíssem nas graças do povo.
Eram rostos memorizáveis e a estratégia marketeira servia para alavancar carreiras e propagar as produções em que os artistas estivessem atuando. Garantia de sucesso imediato e longevidade na carreira. Coisas que, se foram fundamentais à época, atualmente revelam-se totalmente ultrapassadas. Nostálgicas e estranhas, por assim dizer, às sensibilidades de recepção e ao engajamento midiático modernos.
Naqueles tempos em que, como diria Gilberto Gil, “o mundo era pequeno porque a terra era grande”, parecia haver apenas uma meia dúzia de “artistas” de primeira linha circulando por aí. Aqueles, claro, cujas imagens mereciam perpetuar-se na memória afetiva dos telespectadores. Uma geração cujos remanescentes não querem hoje saber além dos seus 80 e poucos anos. Os outros, eternos aspirantes ao estrelato, passavam ao largo desse circuito privilegiadíssimo.
Tudo aquilo porém amarelou, virou scena antiqua. Virou-se a página e uma nova história passou a ser contada. Um tempo de fisionomias fugazes, personalidades líquidas e cultura fast food ultraprocessada e insípida se insurgiu. Os álbuns de artistas de outrora são, hoje, relíquias relativas a uma época datada da cultura pop que devem, se muito, valer alguns centavos numa lona de páginas desgastadas em uma calçadinha qualquer. Valem menos que uma coleção amarelada da Digest.
Na vitrine atual, excelentes atores e artistas em geral dividem o caldeirão da onipresença pública com os bons, os oportunistas e os influencers, além, claro, de anônimos a dar com o pau e toda uma gama de dublês de tudo. Muita gente atua, canta, dança, sapateia, faz comédia, vende simpatia e jogos de azar e, ainda, administra as aparições diárias nas redes sociais. Gente demais. Num mercado de exposições rápidas, para consumo e descarte imediato, não há mais a imperiosidade de uma memória afetiva para rostos, vozes e talentos referenciais. Nada mesmo que mereça servir à composição de um álbum de figurinhas.
“Um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama”. O comentário do artista americano Andy Warhol, ventilado ainda nos anos 60, nunca foi tão cabível. Soa, atualmente, como uma profecia realizada. São incontáveis os rostos em disputa pelos tais minutinhos. Arrisco até a dizer que esse tempo poderia ser recalculado. Não cabem mais 15 minutos para cada um/a aspirante a foto da capa. Quem quiser expor seus talentos, não importa a magnitude, no mundo artístico prepare-se para enfrentar a volubilidade do mercado.
Onde um influencer sem caráter de base ou talento adicional qualquer, pode auferir, em pouco tempo, mais reais que um artista real poderia adquirir uma carreira regular e minimamente marcante. A ponto de poder ilustrar as páginas de um álbum de recordações.
Em tempos de relativa facilidade de acesso à exposição pública, o potencial colecionador de “figurinhas carimbadas” de ídolos ficou órfão. Com tanta cara, sempre nova, a disputar espaço em sua mente e coração, não há espaço de armazenamento suficiente para empilhá-los, nem altar, nem velas para alimentar qualquer culto. Com tanta demanda, é urgente consumir e descartar, de preferência com a superficialidade que move as paixões voláteis.
por Edson de França
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