segunda-feira, 20 de abril de 2020

BUSCA

Há de chegar o dia, a hora precisa
Em que direi te vi, te achei, 
De pronto comprei a idéia, 
persegui um ideal por vir…

Por vir razões, futuros,
Impossíveis mundos intuí
Mesmo assim persegui teus rastros
Alinhavei teu caminhar a mim

Teu olhar, distanciar
Teus dias, minha euforia
Pelo pouco que colhia

São flores, são pés
Dias de outono, teimosia
Do barco que ancoro a ti.

(Edson de França)

sexta-feira, 17 de abril de 2020

SOUL

Danço em tuas mãos, morada do desejo
Vejo-me criança, ancião
Varão, fêmea.

Danço em tuas mãos, tocante arpejo
Beijo a boca, pés, mãos
Sou razão das notas…

E dos dias.

Danço em tuas mãos,
Ouço o trovejo, o matraquear
Sinto o arquear, o fim.

Danço em tuas mãos, sobejo
Realejo do tocador 
De destinos…

Em instantes meus
Danço,perplexo,  em tuas mãos.
Sou a imensidão

Folha entregue aos carinhos do vento 
E do tempo.

(Edson de França)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Ela, tu, sei lá o nome

A mulher, a pele
Branca, luz
Pelo, inverno, estação
Abrupto encanto

Amo-te pelo que escondes 

pelo espelho que te olha
Selfie, espécie
De se ver e evocar

O lábio ativo
(Sugestivos vermelhos, lápis)
Cabelos cor de chocolate

Do olho exposto acolho
O que vê, o que esconde?
Sugestão subliminar

Deve-se ler, tocar

A pele
Essa névoa.
Enlaça-nos
Com teu sutil enlear.

Móbiles

Pássaros vegetais
Ânsia de ser vivo
O peixe, também vegetal
Ao alcance e a salvo do bico fatal.

Para nós é cena
Acrobacia de matéria morta
Aplicada a elementos visuais
Pássaros, linhas, peixes.

É drama. Trama.
Teatro vivo
Motivado pelo silêncio do vento
Que brinca e atiça os elementos.

(Bar de Gilmar, Bancários, 28/02/2019)

(Edson de França)


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Poema náufrago

Não assisti, 
senti a falta bem depois
Ele já não era material
Vaga lembrança, era,
Na não vida das memórias digitais

Se senti
Se entristeci, digo-te:
só perde para a partida de meus irmãos
E de alguns dias afetados pela gripe

Sei dele integralmente restaurado,
Rindo
Em um lugar outro a que não posso ir.

O poema naufragou
Tragado pela rede.

Restaram-me os destroços,
lascas de breu, pingentes
que compunham a carcaça frágil
Que amei amar
Enquanto paria.

NO MEIO

Fácil é se misturar a essa gente.
Nossa cara é a cara de muitos
Circunspectos, circundantes,
Caminhantes, pérolas, pingentes
Do trem que transporta sonhos,
Frustrações, medo sabe-se lá de quê
Jamais da vida espectadores
So disponibilidade para se jogar 
e se perder pelaí!

(Edson de França)



ERA

Era
Varria, espancava,
Lavava os cômodos de dentro.

Era 
Tão fechada que lhe
Assustava o lá de fora.

Não
Queria olhar, bastava-lhe
O sol que a banhava…

Não 
Abria as janelas, não
sentia na pele o calor?

Para que então  serviam as manhãs?

Eram
Alentos, aconchegos,
Paz, interior.

Eram
Minutos, horas, pequenas
Eternidades, sabor.

Não
Eram desenganos,
Traições mundanas…

Não
Eram signos, sinas
De uma vida fora do aquário.

Para que servem as manhãs traiçoeiras?