sexta-feira, 24 de abril de 2015

Maturidade intelectual (para a formação das opiniões)

            A história de um povo se faz pelo investimento nas formações individuais que, ao longo de um processo de compartilhamento de ideias e participação social, acabam por se materializar em decisões coletivas que influem nos comportamentos e nas realizações.
            A educação, a civilidade, o respeito, a honestidade, a lisura e até a capacidade autônoma de decidir e influir nas questões polêmicas da vida social, como a violência, por exemplo, demandam diretamente dessa equação.
            Creio não ser difícil intuir que a referência ao “amadurecimento individual” guarda uma relação direta com os processos educativos de transmissão, aprendizado e, sobretudo, construção do conhecimento.
É nesse território que os reiterativos, e para alguns maçantes, clamores teóricos e práticos em torno da essencialidade da educação como vetor de desenvolvimento do indivíduo e da sociedade (capitaneadas, em nosso meio, por pessoas como Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Cristóvão Buarque) ganha expressão.
Infelizmente, relegada a um plano secundário por governos e, muitas vezes, levada a reboque até por agentes diretos do processo, a educação entre nós continua sendo um problema estrutural e, sobretudo, um item mal compreendido e parcamente assumido por grande parte da população.
Educação em si não é só dominar os territórios do letramento, da leitura básica, da formatação e difusão de opiniões. Perpassa esses estágios, mas deve ser compreendida como conjunto, uma parte sendo indissociável da outra, um composto que nos capacitaria, individual e coletivamente, como entes autônomos de decisões, influência e autonomia.
A educação, assim compreendida, tem o poder de promover mudanças ou, no mínimo, contribuir para a participação proativa em todos os setores da sociedade, quando da afluência de questões mais delicadas.
No protagonismo conjuntural de questões como a violência urbana, as drogas, a maioridade penal, o desarmamento civil, a corrupção, é que se abrem brechas para o debate público, para emissão de pontos de vista ponderados e sugestões efetivas de solução ou contornamentos.
Nada disso, contudo, parece fazer parte de nosso repertório das ações “cívicas”. Pelo menos não é isso que se vê. Se a educação não é tomada pela sua raiz revolucionária, o protagonismo de um povo vai sendo postergado para um tempo além, quase não identificável.
Assim, gerações vão se perdendo sem vislumbrar mudanças realmente significativas, em meio ao pessimismo, a descrença e o engodo. Presa fácil do dirigismo patrocinado por grupos e corporações que, entrementes, lutam pela manutenção de seus próprios interesses e privilégios.
Um maior conhecimento, produzido e partilhado não nos livraria das trevas, é certo, mas ao menos evitaria a profusão de idéias centradas nas paixões. Ademais, nossa débil educação humanística geral age como incapacitante para formulação de opiniões mais balizadas, de domínio de métodos mais eficazes de análise da realidade circundante.  
O que parece sobrar-nos em termos de ardis políticos, pendores musicais (?) e malandragem futebolística, falta-nos na elaboração de métodos de apreciação das situações postas com isenção e objetividade.
Somos tomados pela emoção e pelos fracos critérios de análise. Não conseguimos ainda produzir um pensamento massudo sobre nossa realidade. Nossos posicionamentos, tão em moda, fartamente veiculados nas redes sociais da atualidade, expõem muito da nossa, ainda frágil formação, para análises contextuais e conjunturais e, consequentemente, para a participação consciente nos destinos de nosso quintal.

por Edson de França

               

               

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Dando alta para as zebras

Entre a décima segunda ou decima quinta saideiras, tendemos a ficar mais intensos na emissão de voz e, magicamente, os pensamentos parecem nos converter em entes mais espirituosos. Foi numa saga dessas um dos meus amigos me surpreendeu, em nossos papos aleatórios, com uma expressão deveras sugestiva. Qualquer coisa desagradável que surgisse ou que, por uma incongruência marota dos astros, se tornasse aziaga, recebia da parte dele um taxativo e filosofal: “Tou dando alta para...”.
Bastou a primeira emissão e seguiu-se uma profusão de “altas”, generosamente distribuídas, para pessoas, instituições, lugares e situações. Passei, por imitação, também a “dar altas” para fatos cotidianos de humor desagradável. Passei a considerar minha mera posição humana como um labirinto psíquico, sujeito a ocorrências sempre limítrofes, jamais intermediárias. Elas cotizam minha paciência, em parcelas não exatamente iguais, de estados de bem estar e irritabilidade iminente.
Dos estados de “bem estar” nada a dizer. A não ser curti-los extensa e intensivamente. Aos outros, cabe sempre a referência alegórica do manicômio, do hospital em que nos tornamos, em determinadas situações provocadas por agentes externos ou por nossas próprias encucações doentias. Dependências de um hospital, paredes brancas, convalescentes e estados terminais, leitos cansados de desencarnes, loucos de fato ou de direito zanzando de cima para baixo e nos observando, sádicos, com seus imensos olhos insanos.
Penso que não é exclusividade minha (nem do amigo professor) essa proto-condição humana. A materialidade acachapante dos cotidianos é condicionada pelas relações com instancias de toda natureza. Cada uma delas sugerindo emanações que fogem a qualquer controle por parte das entidades envolvidas. Há miasmas e produção acentuada de fogos-fátuos nas nossas estáveis e cambaleantes relações de convivência. Assim nascem os desacertos e as situações de desconforto.
Sempre que elas quiserem tomar contar, protagonizar a zebra em nosso pasto, alta para elas. Dar alta é tornar suspenso um estado de permanência em nossos limites. Existem, lógico, hospitais para recuperação prolongada e de pronto atendimento, esses últimos sem elasticidade de tempo para uma recuperação completa. Entre nós, seriam os chamados pavios curtos, aqueles que não estão com a paciência em dia para suportar ocupações de leito por muito tempo.
Há gente que atura, suporta, engole o sapo, respira, infla o peito e sai por cima. Talvez quem tenha uma tendência Madre Tereza se encaixe nesse perfil altruísta. O resto de nós, cuja santidade não tem raízes bem firmadas, seguimos tentando dialogar com o mundo e, vez em quando, “dando alta” para pessoas, situações, instituições, as coisas chatas e os atrasos de vida em geral.

por Edson de França     





   

  

Encarando a vida

           
Artistas que iniciam precocemente a carreira costumam afirmar orgulhosos: “Não nasci. Estreei!”. Uma forma de enaltecer a capitalização precoce de seus talentos e destacar eficiência de sua carreira. É fácil, penso, usar a máxima quando o ente é dono de uma trajetória exitosa. Dessas sopradas, desde os primórdios, pelos bafejos da sorte que garantem a intermitência ascensional do sucesso. É confortável o exercício (meio esnobe, é bem verdade) de valorizar o brilho da própria estátua, dadas essas objetivas condições.
O contrário, porém, bem que pode acontecer. Ou seja, naqueles casos em que a rigor não houve estreia, e a cada novo espetáculo, reza-se para que os deuses brincalhões e sádicos da divina tragicomédia humana permitam ao espetáculo ir até ao final sob a incidência de percalços mínimos. Naqueles em que até o acordar diário exige empenho hercúleo, e botar a cara na rua seja um desafio permanente.
Eis dois cenários contraditórios da vida, resumidos em dois patéticos parágrafos. A via por onde caminhamos nem sempre é pavimentada, a iluminação é ruim em muitos pontos e até a própria condição nata dos sentidos dos caminhantes são determinantes na condução do percurso. Além de tudo, ainda pairam, em torno do caminhante, energias colaterais, por vezes regiamente maquinadas, que atrapalham em muito o caminhar.
A existência não tem manual de instruções. Mover-se em meio a ela, prover o mínimo necessário para sobrevivência em meio ao tiroteio não é tarefa fácil. Quando falamos em mínimo, não estamos falando só de pão, esses da esfera material. Há elementos de ordem psicossociais que determinam, a rigor, comportamentos caros à vida como os estados motivacionais, os trânsitos sociais, as escaladas ascensionais de status.
Encarar a vida, ter a “boa malandragem” de adaptação às condições inóspitas, o toque safo pra fugir das armadilhas e outras artimanhas para mandar tudo às favas vez por outra são, digamos, ingredientes básicos no composto do homem.
Viver é contabilizar sucessos para alguns. E conta-los, posteriormente, batendo orgulhosamente no peito, como a dizer que a vida é fácil, para plateias embasbacadas. Para a grande maioria, viver é ter que encarar desafios. A expressão “enfrentar um leão por dia” caberia bem ao desafio de quem tem que encarar a vida sem muitos recursos ou providenciais ajudas da estrutura familiar e social. Viver é processo de perguntas e respostas. Perguntas rascantes que exigem respostas rápidas e, se possível, engenhosas, límpidas e honestas.
Numa dessas publicações que circulam na Internet e vira, por insistência, citações recorrentes no Facebook, Eder Medeiros enumera uma série de ações para encarar a vida. Para ele, viver é “tentar, arriscar, errar, sorrir, chorar, contemplar, se aperfeiçoar, se dedicar, permitir, sonhar, voar, planejar, fazer, perdoar, se envolver, amar”.
Cá por nós, só pra concluir, vamos de Paulinho da Viola, que sabiamente ensinava que “é preciso viver e viver não é brincadeira não”. O barco é precioso, frágil e as marés temperamentais; o timoneiro, este ente inteligente e falível, tem que dosar coragem, ousadia, ritmos e prudência para ir, passo a passo, encarando a vida, ciente das dimensões do barco e dos humores inesperados das marés.     
por Edson de França

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Nosso inferno e a piada das latas

Muita gente deve ter dado risadas com uma piada das latas que traçava um hilário comparativo entre um inferno de ilustre nação e o nosso. A anedota, para quem não conhece, narra o dilema posto a duas almas recém- desencarnadas em sua chegada ao salão celestial: a escolha entre o diabo e a caldeirinha das duas nações.
A graça ficava no fato de que, na hora da triagem condenatória, caso escolhesse o inferno brasileiro, o infeliz era obrigado a comer três latas de excrementos por dia, enquanto ao “felizardo” do inferno rico caberia a mixaria de uma lata diária. Piadas que envolvem excrementos tem o estranho poder de provocar risadas espontâneas.
A religiosidade na entrega das latas nas duas filiais das hostes do capeta era o diferencial. A graça e a picardia da estória em si. A embalagem e entrega do produto de indigesto consumo no inferno americano era pontualíssima. Nele, uma lata diária era uma lata diária.
No nosso, ao contrário, se revelava um pouco de nossa balbúrdia estrutural. Um dia faltava lata, num outro faltava merda e, na maioria dos dias, quem não comparecia ao expediente do trabalho sujo era o entregador. Moral da história: melhor era viver no inferno brasileiro, pois comer merda ainda vá lá, a regularidade é que é phoda.
As anedotas como esta revelam enormidades sobre nossa capacidade de rirmos de nós mesmos. A seu modo, revelam um potencial de autocriticidade mordaz.
Por outro, parecem exaltar virtudes em pontos onde somos visivelmente deficientes. Algo como se afirmar que as coisas abaixo nas terras brazilis estão fadadas a serem assim mesmo. E que, portanto, conformados, é bom encaixarmos essa situação em nossa mentalidade mediana, rirmos e apenas sermos conscientes de nossas mazelas.
Revela, por fim, infelizmente e sobremaneira, a cruel totalidade de nossas falhas estruturais e estruturantes. O inferno lá descrito é nossa imagem no espelho. Cagados e cuspidos, nem na entrega rotineira da ração malcheirosa conseguimos ser eficientes. Nesse ponto, diria que a piada estaria completa caso enaltecesse também nosso papel de mazeladores.
A piada dos infernos deveria nos servir para gerar indagações. A princípio, bem ou mal, dispomos de estruturas de serviço, de gerenciamento, de participação, de locomoção. Dos mecanismos de elaboração de politicas públicas às estruturas de pavimentação de ruas e logradouros, passando por serviços de saúde, educação e segurança. Temos a estrutura, a lei, os planos, o material humano, as ações cotidianas.
Se temos tudo isso, o que nos faltaria, então? Acho que além do riso autocrítico temos que rever a noção e extensão de nosso inferno. Dos enlatados à base de esterco humano que somos instados a engolir como ração diária e que produzimos sistemática e profusamente.
Tomemos o exemplo de nossas cidades, independente da de seus limites extensão, diante das chuvas de fim de verão. Atoleiros, calçamentos revirados, alagamentos em bairros “nobres”, deslizamentos em bairros pobres, surto de dengue e chikungunia, filas de crianças e idosos em postos de saúde, atendentes mal-humorados e médicos mal formados e sem sensibilidade social e humana.    
Por aqui, convenhamos, falta a cobrança mínima de regularidade por parte dos entregadores de nossas sagradas latas diárias. A falta-nos a seriedade, falta-nos governança, falta-nos o equilíbrio dinâmico de consertar as coisas antes que se tornem metatásticas, falta-nos participação e cobrança.
Infraestrutura de vias, estrutura de transporte público, inoperância das empresas que administram serviços básicos como água e saneamento básico. Sem contar, claro, com a indefinição de responsabilidades. Federação, Estado, prefeituras, diretamente ou via autarquias, não tem uma cartilha definida de responsabilização. O jogo de empurra serve ao propósito de minorar a urgência urgentíssima de certas providencias.
 Se formos perguntar, porém, a algum responsável, fatalmente eles creditarão a culpa a São Pedro e sua incontinência pluvial. O tempo e a hora de atuação não são respeitados por aqui. No final, sobra para nós a impressão de que se um dia falta o conteúdo da lata, noutro a própria lata e em outros o entregador falta ao trabalho é que nós, sem percebermos, vivemos é mesmo dentro da lata compondo, junto com conteúdo, um cenário de situações indigestas, e penosamente compartilhadas.

por Edson de França    




segunda-feira, 30 de março de 2015

Fogo amigo em tempos de selfie mania

A expressão “fogo amigo” remete-nos aos cenários de guerra, aqueles em que um guerreiro fatalmente “distraído para a morte” é abatido por um bólido qualquer, disparado por um companheiro de farda. É difícil, senão impossível, identificar as razões motivadoras do fogo amigo, afinal o alvo de quem se podia pegar um depoimento esclarecedor, está mudo para sempre. Sepulcralmente encerrado em seu papel de vítima do acaso. Ops! Falei acaso? Pode ser que a coisa também não seja tão pacífica assim. Reflitamos.
No máximo, pode-se listar duas ou três possibilidades fortes para a fatídica ocorrência. Primeiro, por descuido. Há sempre, em todo exército que se preze, a figura do vacilão; aquele que cuida displicentemente de seus afazeres mais básicos e, em meio à guerra, é capaz de descansar os dedos tensos no gatilho da arma. Segundo, por tensão ou zelo extremo. Na guerra, veem-se fantasmas ou sugestões psíquicas de presença inimiga; isso desperta no soldado um estado de tensão vigilante e sentidos de autodefesa permanentemente acesos. Basta uma sutil assombração e lá vai bala.
Finalmente, sadicamente falando, investiguem-se os casos de intenção homicida. Essa é a arena do amigo da onça. Não cogitemos aqui especular as possíveis motivações (aqui é uma crônica e não um tratado), mas ao menos duas possibilidades hão de ser consideradas. Por uma neurose detonada pelo estado de guerra, onde matar tenha se tornado uma necessidade, uma ordem superior emanada sabe-se lá de que esfera.
Ou, por uma arenga qualquer que o sniper tenha tido com aquele desavisado alvo, na difícil convivência da caserna. Uma terceira via nos levaria à pratica do divertimento puro e simples, ao prazer mórbido que motiva gentes a infringir dores físicas ou psíquicas em outrem. Não importa a causa. Ao final, estará um corpo estendido no chão, uma alma penada a mais para se acostar ao túmulo do soldado desconhecido. E, em alguns casos, com o remorso do atirador, caso tenha atirado por inapetência emocional.
Após quatro enfadonhos parágrafos, hão de me perguntar o que essa zorra toda tem a ver com o titulo. A rigor, o fato de que a via internáutica criou uma espécie de fogo amigo que, com todas as suas sutis nuanças virtuais, tem um efeito bem real na vida das pessoas. Não são poucos os casos de imagens geradas por amigos em potencial, reais ou virtuais, que após viralmente distribuídos, agem como uma espécie de morte social para as vítimas.
A via internáutica serve como território grandioso para o culto famigerado à personalidade. Da mesma forma que se fazem cultos à estética pessoal (em sua maioria, ridicularmente) por meio dos selfies, se promovem  exposições baratas do ridículo alheio e exibições ingênuas de candidatos a fama ou ao tiroteio do fogo amigo.
O caso da enfermeira do Samu, em Campina Grande, há dias atrás, foi o que levou-me a considerar essas possibilidades tão reais. A exposição despojada às lentes dos cinegrafistas amigos, levou aquela profissional ao questionamento, por parte de seus superiores e pela sociedade, de suas habilidades laborais e respeito ao ambiente de trabalho. Fogo amigo no mais extremo dos extremos.
Não nos cabe especular qual a motivação de quem postou a tal filmagem. Cabe em duas palavras: sacanagem e inapetência com o uso das tais redes sociais. As redes estão aí, ao alcance de todos e devidamente descomplicadas para espalhar coisas para o bem ou para o mal. Ela, atualmente, dá a medida da inabilidade, da displicência e do mau-caratismo das pessoas.
Há um tempo, pela fluidez do signo linguístico utilizado para compor boatos, a dança da moça levaria um tempo para chegar aos ouvidos de quem quer que seja, ainda assim, sob a imprecisão da historia repetida e do descrédito, cobria a aura dos boateiros de plantão contumazes. Hoje, tanto o anonimato criminoso como a notabilidade trocista possibilitam a materialização visual das produções da corte de fofoqueiros e, a velocidade com que eles se espalham, acaba manchando, quase sempre, créditos sociais adquiridos e traindo fatalmente estágios construídos de convivência.
Distribuir, por molecagem ou displicência, fotos ou filmagens de pessoas (amigos?) em despojada naturalidade é o fogo amigo mais cruel que se pode considerar em nosso tempo. Cruel porque, em verdade, mortifica a vítima, causando-lhe transtornos sociais irreparáveis. Isso, enquanto as hienas riem e os livres abutres da miséria alheia se protegem, finoriamente, por trás de suas lentes assassinas e usurpadoras de reputações.
por Edson de França
  


terça-feira, 24 de março de 2015

Tribunas seletivas

Há tanta gente de boa conversa procurando uma tribuna, um parlatório, uma plateia, algum artefato ou situação que amplifique suas mensagens. Falo de gente de bem. Gente que tem o que dizer. Gente que traz em sua fala mensagens edificantes, a boa vontade inclusa em seus gestos e escolha das palavras. Gente que não se deixa inflar pelo destempero. Gente que quer a conciliação, que prega a paz, a concordância, o bem comum, o bom senso, a convivência dos contrários. Entende a existência dos antagonistas como um item primordial da sua própria experiência de vida.
Gente que espera, com a paciência dos sábios, a hora de emitir comentários, aconselhar quando possível, ser o guia informal das gentes. Gente que conhece a aura de suas verdades. Gente que sabe do papel limitado de suas teses e de sua própria insignificância no tear dos múltiplos fios de opinião. Gente grávida das melhores intenções, mas que não quer influenciar demasiado nem criar grandes atritos, muito menos para trabalhar para gerar exércitos de prosélitos. Gente que tem plena consciência dos limites do seu canto, da extensão e da altura de suas notas. Busca a valorização de seus minutos de protagonismo. 
Para esses muitas vezes sobra um palanquinho, uma sala de desatentos aprendizes, uma roda boêmia num bar má afamado, uma conversa informal com um amigo de longa. Situações simplórias, espaços exíguos. Mas, talvez, não careçam de maiores espaços. Talvez suas mensagens, por leveza, pureza ou retidão, não sejam semente de fácil plantio. Talvez, pela elaboração de suas verdades intrínsecas, se tornem raras e de “difícil acesso” para mentes tão acostumadas às superficialidades do discurso fácil de viés primitivo e controverso.
Ironias da vida, meus prezados. Aos trogloditas sociais que nada tem a acrescentar a convivência dos contrários, porém, os espaços parecem se abrir como comportas de represa temperamental. Para eles, os microfones, as páginas e até os espaços generosos da crônica servem aos propósitos nem sempre claros, por onde correm os pecados mais aparentes de nossa crônica social: o exercício da bajulação, a reiteração de uma pretensa descendência aristocrática e o uso da “palavra amplificada” para auferir alguns ganhos, por vezes bem mesquinhos.    
A vida, se observada pelo proceder de suas instituições sociais, tem mesmo essa formatação: competitiva, desigual em todos aspectos e eivada de generosas doses de DNA jurássico. A sobrevivência no meio tem que ser construída a base de dentadas, azunhadas e, sempre que possível, a berros que sirvam de alerta e intimidação ao outro. Comportamentos que destoem dessa pauta hegemônica estarão irremediavelmente fadados à limitação do acesso aos meios de propagação da fala e, em casos extremos, até a própria elaboração de pensamentos.
por Edson de França


 

segunda-feira, 23 de março de 2015

A ignorância letrada

Puta com os destinos administrativos do Brasil Varonil, a Maga Patalógica, alcunha jocosa de uma de minhas vizinhas, distribuía impropérios aos governantes de então e revirando os olhos para um ponto indefinível lá nos céus, dizia para D. Zefinha: “Isso é o marchismo, Zefa! É o marchismo!!!” Assistente privilegiado da cena prosaica e ingênuo navegante das literaturas sócio-políticas, imaginava que a tal culpa cabia ao machismo que imperava na sociedade e que, além de responsável por manter a integridade conhecida da personagem, ainda era culpado pelos desmandos administrativos do país, senão do mundo.
Areia pelos compartimentos da ampulheta depois, pude perceber que a culpa pelos problemas eram dirigidas ao marxismo, vocábulo que a minha expert em política tinha captado, en passant, em uma graduação expressa em geografia que não a capacitava a ter noção, se vivia dentro ou em cima da bola azulada, se a África era um continente ou um país ou em qual posição cardeal básica ficava o litoral brasileiro. A questão de fundo, porém, não se reduzia à pronúncia enviesada da máxima sociológica, mas a apropriação do termo para definir a conjuntura e embasbacar a “gente simples” com um pretenso conhecimento. Além, é claro, de alimentar as relembranças e a idolatria da personagem por um certo pessoal de farda.
Esse comportamento, contudo, não é uma particularidade da Maga em outros tempos... Ao contrário, a via internáutica que nos transporta não serviu para criar mais bem pensantes. Aperfeiçoou, sim, a formação e o aculturamento dos “ignorantes letrados”. Uso essa expressão com doses generosas de sadismo, porque acho que para a empáfia dos “inteligentes de última hora”, não há outro remédio que o gelo do artigo para apagar a fogueira particular das vaidades.
Circulam por aí, uma porrada de espécies e subespécies de ignorantes letrados. Minha pesquisa informal, contudo, detectou inicialmente 04 tipos. A primeira delas, chamei de “pocket book”, aqueles que se formam (ou ganham um lustro mínimo) por via das edições de bolso, as compilações, sem jamais conseguir consumir algo no original. Esses até são o mais conscientes de suas limitações e, por humildade, geralmente não andam por aí mostrando seus dentes de asno. Cometem, alguma vez, uma gafe ou outra, mas se contêm.
A segunda espécie é a da osmose axilar, posto que desfilam exibindo opúsculos, por vezes, até originais, mas não ultrapassam a leitura das orelhas. Pena que estas não lhe sirvam de adorno craniano. A terceira é a formação aforismática. Por ela, os insignes ignorantes leem frases soltas, por vezes desconexadas de seu contexto original. Leem, decoram e destilam frases feitas com uma autoridade de quem digeriu o Manual de cara de pau (Manual do cara de pau, é fácil falar difícil, de Carlos Queiroz Telles) na íntegra.
Por último, talvez a mais danosa das espécies, os da oitiva desatenta. Aulas de sociologia, antropologia geralmente são enfadonhas, porque os mestres não têm paciência de descer de seus andores ou esperar que as eclusas do conhecimento aproximem alunos mal-formados das condições de navegação em águas absolutamente niveladas. Esse comportamento que se repete em outras disciplinas como a matemática, permite a formação da espécie oitiva desatenta. Entre a má fomação e a desatenção, o cara vai pegando, pelo rabo, trechos desconexos da fala do professor e depois sai a propagar, rouba ideias de A, B ou Z, faz uma omelete indigesta e as usa, como se suas fossem.  
Todos esses comportamentos de formação (ou de vícios de formação) perpassam e distorcem questões como o “marchismo”, citado no início da crônica. A ignorância total quanto às ideias do alemão Marx – poucos que utilizam suas teses, hoje, realmente leram-no no original. Daí atrelar a culpa pelos problemas do mundo ao marxismo é fácil e falacioso. As ideias marxianas, quando lidas com a parcimônia necessária, mostram uma forma de ver o mundo, a evolução histórica através da construção das riquezas e da exploração do trabalho. Um método, enfim, que objetivamente permite observar a vida, alongar o olhar sobre as nuanças mais explicitas ou mais obscuras da formação da sociedade.
Assim como uma cartilha dos magos capitalistas que ensina os caminhos da capitalização, da administração de pessoas, coisas, e o escambau que sirva à exploração e a competição arraigada entre os homens, só. Culturalmente, contudo, ideias marxianas (ou apenas o termo marxismo), servem aos avatares da ignorância letrada, destituídos de qualquer autoridade intelectual, para denominar movimentos políticos e basear suas conclusões mindinhas, seus pré-conceitos, suas revoluções de fancaria e alienação.
Não acuso, claro, os ignorantes como iletrados. Letrados são, sim. Porém, apenas chegaram rastejando ao letramento. De resto, são boas doses de achismo e arrogância, os quais não tem vergonha de distribuir a torto e a direito.
por Edson de França