terça-feira, 8 de julho de 2014

Professorando




O que me difere da maioria dos professores é ter uma carreira voltada para o ensino superior profissional e, como jornalista teimoso e analista bisssexto, vez por outra poder refletir sobre problemáticas ligadas ao cotidiano desse oficio. No espaço efêmero da web, tenho possibilidade de divulgar as poucas idéias que assomam às regiões ainda ágeis do cérebro. Coisa que para outros companheiros reduz-se ao âmbito da ruminação solitária, ao circuito informal das lamentações entre os pares mais próximos ou mais" modernosamente" pelo compartilhamento de frases feitas no Facebook.
Falo da política nacional, da estrutura sofrível das escolas, do liseu endêmico da classe, do desrespeito patronal, da afronta do alunado dessa geração, da tirania dos que, não dando aulas nem sabendo o que é educação, posam de empresários do setor (visam apenas lucro à custa da atividade) ou burocratas nas instituições públicas (à sombra, escondendo-se, vegetam entre avaliações parciais e perseguições mesquinhas). Enfim, contradições, percalços frustrações e sucessos (mínimos, ressalte-se) que acometem o pobre ente que se dedica a esse mister .
Não creio que ensinar em tempo algum fosse uma tarefa fácil. Ensinar, antes de tudo, é expor-se. Exposição, em termos humanos, é sinônimo de fragilizar-se. Ou melhor, é diretamente proporcional. O inverso seria ocultar-se, proteger-se, esconder-se para tornar-se inatingível. O homem é bem mais forte na condição dos eremitas ativos, possuidor de couraça que lhe faculta certezas e segurança. Tendentes naturais ao parasitismo, tais seres engordam a partir da letalidade de seus ferrões. Essa é a estratégia dos vilões que, destilam seus ativos venenos, enquanto prosperam nas sombras.
Ensinar pressupõe lançar-se ao mundo com pouquíssimas armas, adoração pelo improviso e algumas crenças. Depois, só consciência disso tudo é, sobretudo, que as crenças são totalmente falíveis.
Por armas entenda-se conhecimento. Algo que você aprendeu por processos variados, sob determinadas condições, controles e uso desabusado de algumas competências. Depois, sob a crença de promover mudanças fundamentais na sociedade humana ou simplesmente para sobreviver dos réis que o trabalho permite, você vai ao campo de batalha. O cenário de luta não é outro senão a jurássica sala de aula.
Sala de aula é o “campo da batalha” do bem. A não ser que um ser mal intencionado (e eles existem) adentre aquele ambiente, a noção ali é do bem comum. Vivência, convivência (um ano para o ensino fundamental e médio, seis meses para os cursos superiores), o compartilhamento de conhecimentos e, idealmente, a formatação de novos saberes.
“Campo de batalha” porque o ser humano não é fácil. Sala de aula é processo de comunicação em estado nevrálgico. Nervos expostos são egos, idiossincrasias, orgulhos, avaliações apressadas, criticas comezinhas, desatenções naturais ou orquestradas, incompreensões de qualquer das partes, medo ou negação da interação.
O professor não tem que ser um artista de alma aberta e gosto pela liberdade de pensamentos. A sociedade não o concebe nem o aceita assim. Cobra-lhe inclinação, maestria, capacidade, disposição, talento, competências, habilidades, denodo, eticidade, aptidões, desvelo, domínio de conteúdos compatíveis, posicionamentos conservadores. Ufa!!!!!! A ferro e fogo, o professor tornar-se-á arauto da tradição, dos poderes e da autoridade. Alguns, então, por tão envoltos nessa vã consciência, viram mais autoridades que qualquer coisa.
Mas, contrariando expectativas e dadas as condições objetivas de trabalho, o professor veste a pele de astro do improviso. É o artista do “circo sem lona”, o alvo, o bufão, o Corcoran para uma histérica rainha Valentine. É ele quem busca na experiência, para além de onde os papas da pedagogia prescreveram e as políticas públicas ditaram, a “solução caseira” para problemas bem concretos. É ele quem atura. É ele quem, sozinho, questiona as próprias capacidades. Duvida delas. Dia seguinte, contudo, mala nas costas, pé na estrada, vai em direção a um novo sucesso ou esbarra na abusadissima incompreensão programada.  
Ensinar, enfim, não é missão, nem é sacerdócio, nem meio pobre de sobrevivência. É processo. Arte configurada socialmente com o intuito de por frente a frente pessoas, individualidades (geralmente de idades diametralmente opostas), num pacto de troca de conhecimentos. O novo entra em contato com o velho como numa reação química. As interpenetrações são inevitáveis. Do choque deve, mais que tudo, surgir o novíssimo. Quando não rola a inovação, nos rendemos ao marasmo, ao mais do mesmo.  
Professores jamais serão capazes de avaliar o nível de aceitação e aprovação de seu desempenho por parte dos alunos. Ficamos com a nossa própria avaliação e acabamos meio que convencidos de que fizemos um bom trabalho. Mas, no fim, temos que deixar claro que nossas escolhas (uma espécie de edição) dos conteúdos que levamos as salas de aula podem não ser as mais perfeitas e, também, que nosso desempenho pedagógico pode não atingir os objetivos traçados para qualquer ação de ensino-aprendizagem.

por Edson de França

terça-feira, 7 de maio de 2013

Andarilho em prosa





Tenho escrito minha história sem lápis. Não uso da palavra escrita. Há tempos também esqueci os vocábulos que me permitiam interlóquios. Narro meus passos, escrevo, com a insistência dos meus pés em prosseguir. “Prá onde vais¿” – pergunta-me assaz o vento, a ave agourenta, o curioso. Respondo por dentro, só de birra – “Aonde a palma dos pés levar!”. Minha passada chora com o chão, imprime marcas. Minha história. Siga-me. Quando paro, permito ao mundo onomatopaicas bizarras, palavras rotas, expressões podres. Quem me ouve rsrsrsrsr se dividem em opiniões. Alguns loucos me lêem gênio; religiosos, a encarnação decadente de um avatar. Os comuns como bêbado de soleira de bar. Digo-lhes, sem abrir-lhes os olhos. “Sou vocês”, e saio. A estrada um dia há de me absolver. Só ela...

sábado, 20 de outubro de 2012

Bebendo música





A canção popular cria e recria a todo instante, ritmos, sonoridades, construções verbais e poeticidades que interferem no cotidiano auditivo das gentes e na composição de retratos das épocas. Incorpora esse caldo, ativo no inconsciente coletivo, às sensações de pertencimento a uma determinada cultura, a saudosidade ancestral e à criticidade permanente das conjunturas políticas.
A canção tem a função, se assim podemos falar, não apenas de remexer o corpo ou ativar as sensações elétricas das romanticidades efêmeras. Coisa em que a maioria que “dá voltas no trio” parece acreditar. A canção é, sobretudo, a sensibilidade artística, sob os cânones de uma plasticidade datada, aplicada sem peias nem cabrestos a sentimentalidade de um povo. Um caminho lúdico, em primeira mão, de se reconhecer e participar da vida e das marés tempestuosas da história.
Pareço, a primeira vista, teórico demais, ideologista demais, hermético demais e outros istas a mais demais nesse começo de texto. Sei que posso soar esnobe para alguns. Mas posso me explicar, com sua permissão, caríssimo leitor. A música popular é elemento fundamental para a aprendizagem, para a vivência e auto estima de um povo. Irredutivelmente, é preciso ser consumi-la e ponto final. Penso dessa forma mesmo e talvez não saiba dizer a mesma coisa com palavras mais simples. Foi assim que sempre compreendi (ou tentei compreender) a música – mais precisamente, a canção popular (visto não termos, brasileiramente falando, uma tradição erudita, clássica, por assim dizer) – de minha época, desde a minha distante e persistente adolescência.
Não fiquei imune aos primeiros acordes que ouvi de Belchior, Raul Seixas, e Ednardo e Luiz Gonzaga e Capiba e Jackson do Pandeiro e Trio Nordestino e. Não tinha como. Nem com Livardo Alves, Vital Farias, Cátia de França, Biaia,
Zé e Elba Ramalhos, paraibanos de fé. Nem muito tardiamente a Disparada de Geraldo Vandré e Theo de Barros, mesmo sendo paraibano. A mandíbula do burro executada no acompanhamento de um frenético Jair Rodrigues ressoa no meu ouvido a todo instante.
Falei que ouvi tardiamente a disparada de Vandré e foi. O que só me convenceu, também precocemente, da nossa pobreza cultural. Pobreza não em termos de produção (nisso, somos admiráveis), mas nas difusões enviesadas da cultura endógena. Santos de casa jamais fazem milagre por essas bandas. O que, por fim, nos acomete de um desconhecimento pífio de nossa produção cultural, deixando faixas de público e regiões totalmente ignorantes do “barulhinho bom” que se faz por aqui.
Por gostar de remar contra a maré é que casei com a música da Paraíba de várias maneiras. No cartório e na Igreja - com juiz padre, padrinhos e testemunhas - me casei com a música dita “séria”, uma Música Popular da Paraíba com certa griffe que tanto agrada aos intelectuais, música cabeça. Mundanamente, fui seduzido e me amancebei com a música brega. Aí rolou uma cerimônia simples, com direito a audições de música  de parques de quermesse e “festas americanas” do subúrbio que nos pariu. Para completar, ainda flerto auditivamente com toda a produção instrumental, experimental, eletrônica, multimídia, raps, repentes e batuques produzidos por contemporâneos. Virei amante fiel, cuidadoso, extremado, com ouvidos liberados para todos que usam a música como forma de expressão e creem no ato de criar como uma forma sempre renovada de viver a vida como passagem e o instante como forma de interação.

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 Para hoje a pedida é Livardo Alves, em verso e ironia, na canção Doido da Paraíba, música do álbum duplo Malandro do Morro.

Pra ser doido na Paraíba
É preciso ter juízo

Tem que pular feito guariba
Tem que cantar de improviso
Tem que lamber, dendê, macaíba
Chupar um limão e dar um sorriso

Tem que ser artista, masoquista, equilibrista
Alquimista, alpinista
Tem que ser polivalente, inteligente
Inconsequente do jeito que o povo gosta

Eita doido maneiro
Não rasga dinheiro, e nem come bola
Eita doido faceiro
Que bate pandeiro e toca viola


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@ Derradeiras Abaixo
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A situação da saúde no Brasil é de fazer chorar. Por aqui o serviço público de saúde sofre pela ação nefasta de gestores e agentes (leia-se máfias infiltradas sistema, má gestão das políticas públicas, políticas públicas inadequadas, agentes despreparados e mais). Enquanto penteava essa derradeira, uma olhada no site da Revista Época deu-me o mote que precisava para ilustrar minha fala (http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/10/saude-pede-socorro.html)
Por essas e outras é que entre a população prolifera a desconfiança quanto à eficiência do serviço público de saúde. Verifica-se, também, certo “preconceito” que visa desqualificá-la mais ainda. Enquanto isso, o setor privado – este que um dia foi símbolo do status sócio-econômico e uma das joias do ideário neoliberal contemporâneo - não passa de gestor de “planos de saúde” na melhor acepção da palavra. Para estes, o cliente (ou seria vítima?) só serve enquanto são. Haja, portanto, saúde para trabalhar e pagar mensalidades (altíssimas, reajustadas religiosamente e por faixa etária), baixa cobertura, rede sofrível de atendimento e etc.
Para equacionar tudo, além da TV a cabo, das prestações do seu possante financiado e das especialidades não cobertas por seu plano máster, faça também um plano funerário. Pode ser que na hora em que você precise realmente de um plano, este seja realmente o que lhe socorra. Amém!

por Edson de França

Lendo as cidades







            Quando se embarca num coletivo urbano pode-se ter certeza de uma coisa: não teremos pela frente, em termos de paisagem, um mundo uniforme. Você irá do primeiro ao terceiro mundo em questão de segundos, verá inferno e maravilhas nas tessituras da cidade em que mora ou que visita, passará pertinho da ineficiência administrativa e estreitará misérias e sub-humanidades em exemplos bem vivos. Verá, com certeza, poucas grandezas que encham olhos e peito de esperança.
            Nos percursos abertos para os transportes individuais geralmente as vias tem pavimento aceitável, ruas relativamente largas e exemplares de “desenvolvimento” no “bom gosto” da arquitetura das casas de moradia e comerciais. Mais curto, mais objetivo, mais cômodo. Nas vielas destinadas aos coletivos é onde o Brasil mostra sua cara como uma face deformada pela acne. Centímetros de pele sã dividem espaço com protuberâncias sanguíneas que imploram ungüentos e cuidados especiais.
            O Brasil carece ser estudado a frio. No tête-à-tête das ruas é onde se gesta a consciência de que há um trabalho a ser feito. Todo o conhecimento acadêmico com que se entope as veias das juventudes ávidas pelos empregos do futuro de nada servem se não conseguem estabelecer métodos de análise crítica sobre a plataforma social por onde pisam nossos insensíveis pneumáticos. Tal método deve morar primeiramente nos livros, claro. Mais é urgente que ele salte de lá, dialogue com a realidade e surja novo como conhecimento e propositura.
            Por nossas paragens moram resquícios de um coronelismo (hoje high-tech, repaginado, mas tão atrasado em sua lógica como ontem de manhã) e uma crença na determinação divinal das situações. O discurso de mudança só aparece como figura retórica no discurso político sazonal. Não está encarnada como meio de ação na cabeça nem na postura da maioria de nossas gentes. Assim sendo, todas nossas mazelas sempre aparecerão como naturais, cristalizadas, portanto, insolúveis.
            A paisagem caótica de nossas cidades parece não ser objeto de dissecação para estudantes em geral. E o cardápio, ao contrário do que possa se pensar, é amplo e oferecido gratuitamente. Desde as Letras (a grafia risível dos selves-selves, por exemplo, uma nova língua, uma interpretação popular, uma estratégia de resistência à invasão dos estrangeirismos e ao ar esnobe das classes que pensam dominar a língua?), a História (que critérios determinaram a ocupação urbana?) até o Planejamento urbano (Em que armários foram parar os planejamentos das vias de locomoção?) e a Engenharia (Construções feitas abaixo do nível da rua não acomodam homens-ratos que não resistiriam à primeira enchente?).          
                  As cidades mostram suas contradições como microcosmos de uma “realidade” brasileira reiteradamente reproduzida. Você verá obras monumentais, é certo, moradias dignas, é certo. Mas verá também universos insalubres, mal planejamento urbano, casario decadente pedindo demolição, arranjos arquitetônicos do improviso suburbano, estreitezas de vias e submoradias se amontoando numa babel contemporânea. A cara das nossas cidades, toscamente maquiada, se mostra para quem vê a partir da janela, na maioria das vezes empoeirada, de um coletivo urbano.

por Edson de França

sábado, 13 de outubro de 2012

Garotos (resumo tosco)





Também já fui garoto. Brasileiro, paludo, peladeiro, passarinheiro, caçador de lagartixas. Do mundo das bolas-de-gude, buras, triângulos, dos patachos e notas de carteiras de cigarro que tinham valores imaginários, de baleadeira de soro para imolar passarinhos e calangos. Fui torcedor do Flamengo até perceber o equivoco; mudei de flâmula e nação. Jamais tive uma “nega Tereza”. Deixei de caçar anuns e lagartixas. Abracei outras nações e outras causas. Horizontes distantes desafiavam-me a vê-los de bem de perto.
Como garoto sonhava. Tinha medo de fantasmas, quebrantos, cria em crendices, bicho-papão, queria ser lobo. Apreciava a chuva doce, a tempestade.  Tinha medo de raios, divertia-me com os trovões. Aprendia ingenuamente. Apreendia a vida, a oficina de serralheiro, os cadernos, o violão imaginário, a guitarra esculpida em madeira bruta, os sons dos bate-latas e ala-ursas no carnaval.
Crescia entre a ingenuidade dos justos e a fé dos miúdos. Aprendi a sentir deus em meus pulmões (a falta de ar me fazia piar como uma ave noturna) enquanto escalava as árvores do quintal ou me dirigia aos pontos mais elevados do bairro para assistir a vida que corria na velocidade dos automóveis na BR 230 e nos casebres de beira de estrada que escondiam as gentes humildes do meu lugar, com sua férrea rotina e suas crias sambudas e remelentas.
Fui pescador nas lagoas, candidato a manchetes de jornais sensacionais em tempos de escassez de noticias (até hoje não sei nadar), consumidor voraz de oliveiras para deixar a língua roxa. Demorei a andar de bicicleta. Levei meus tombos até desistir de ter professores para esse oficio. Tornei-me caminhante; assim vivi aventuras. Até hoje acho que não sou mais que isso: um caminhante. Caminho como d’antes pelas vielas da vida real e pelas entrelinhas do espaço psíquico dos livros.
Um dia, em meio à caminhada, senti que havia crescido. Crescido em ossos, em tez, em princípios, em malicia para desconfiar do mundo e de suas vontades, em couraça para assimilar seus golpes. Restara, porém, algo de ingenuidade na marca lesa que me acompanha na insistência do sorriso. Saboreei dos mistérios. Apoderei-me de chaves que decifrariam enigmas do corpo e eliminariam os recalques da alma.
Não vou dizer que a vida não me tenha azunhado com suas lâminas. Não me poupou de cortes; uns bem profundos, outros superficiais como uma brisa marota que “beija, brinca e se vai”. Tive que aprender a curar-me com os seus (e os meus) próprios venenos. Nunca mais fui o mesmo. Aquele menino, contudo, não ficou perdido naquele templo indefinido do deserto onde o adulto amarra da infância. Onde a abandonamos para dela trazermos apenas os recalques.
Também já fui garoto. Sonhador, nobre do reino da infância. Capitão-mor do território das ilusões pueris. Arquiteto de castelos invisíveis e feitor soberano de suas herdades. Para um território tão pequeno um mundo de possibilidades, como a sonhar fazer parte da fauna invisível do jardim, junto a joaninhas e emboás. As pequenas e passageiras maravilhas. Onde ninguém poderia ir, estava eu... como agora, página em branco e mergulho telúrico em resumos tão intransferivelmente meus.
Por isso entendo e desentendo os garotos; os que vivem a presença da idade e os que moram, por pura molecagem, dentro dos homens já contaminados pelas objetividades da vida. “O menino é o pai do homem”, fixou o genial “bruxo do Cosme Velho”, em Memórias póstumas de Brás Cubas. Por molecagem ingênua de homenino rezo para que, por dentro de cada homem, caminhe o menino que ele um dia foi, possuídos da submissão vigilante e curiosa aos enredos desenredados dos mistérios da alma, da carne e dos ritos do existir.

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Banda sonora
“Há um menino, há um moleque... Toda vez que a bruxa me assombra ele vem pra me dar a mão”  http://www.youtube.com/watch?v=0BImp-7-Kzc&feature=fvwrel
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####################################################################### Derradeiras Abaixo
Quando não se fala em mudança, o verbete preferido das administrações públicas ou dos pretendentes a assumi-las é construção. Fala-se em construção como se, obrigatoriamente, tudo o mais não estivesse. Pessoas, natureza, coisas são objetos em construção permanente. Partimos do principio de sermos um “nada” que vai em direção a alguma coisa. Uma nova percepção, uma nova condição, um novo status. Porém, construir exige elementos sólidos, determinação, rupturas quase sempre dolorosas. Fica difícil falar em construção quando o velho traveste-se de novo para permanecer ou contamina com seus miasmas o processo de mudança.
Uma nova Paraíba, por exemplo, (desculpem o pessimismo renitente do cronista) nasceria da instalação de novas mentalidades, de uma gente disposta a dizer sim ao novo, não ao velho, porém, com ponderação nas escolhas. Depois, a desapropriação dos elitismos, dos coronelismos, dos paroquialismos, dos catolicismos arcaicos, dos individualismos antiproducentes. A continuar sob o julgo desses ismos todos, a nova Paraíba teria que ser construída nas camadas estratosféricas onde uma nova ordem se estabelecesse como regra, meta e desapego dos projetos personalistas.
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por Edson de França