terça-feira, 30 de setembro de 2008

Sorrisos (poema)

apenas rabiscos dos teus lábios
giz
nao são tantos, nem tão plenos
para compor um colar de faz-de-contas

Dão um bom pingente, isso sim
(original, digamos)
presente da vida para deleite meu

pingo de mel
que posso fruir, se quiser
a hora que bem entender

quesses fragmentos gentis
jogados ao léu
nao pertendem a ninguem:
(nem a ti que os disparas,
por inconsequente;
nem a minha poesia tarda)

Vou catando enquanto passeias
e monto, qual dedicado artesão,
um rosário fatal de imagenzinhas
zinhas, instantâneas
e é só.

Os dentes do sol (poema)

para Larissa Costa

é do traço infantil
o solzinho que surge rindo
no canto da página.
é um meio astro,
coadjuvante apenas,
num reino de casinhas vazadas,
borboletas cor-de-rosa
e papais e mamães definidos
mas uma luzinha arteira se impõe
e o rei astro- rei brilha
mostrando a todos seu riso de puro ouro.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Lugar

onde se pisa
para onde se olha
onde se penetra
enregelando colunas cervicais

onde se beija
onde se cospe
onde desmineraliza-se
onde as carnes são azuis,
abissais

onde se toca
(soliloquiuns onanis)
onde se ouve falar
não se sabe d'onde

onde as vezes cala-se
as dores dos amores findos
onde chora-se pelos ancestrais

onde se briga
onde se encarnece
devora-se a carne dos temporais

onde se desanda a rir
onde você esporra
e, só depois, goza.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sobre a música

"Música é vida interior... E quem tem vida interior, jamais

padece de solidão". (Arthur da Távola)

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Abraço aos nômades

Gente de passagem, passageiros
Como beija-flores batendo asas
Até atingir a evanescência

Gente que nos olha, e chora
E ri dos mesmos motivos
Que nos move e aproxima

Gente que abraça, e beija a boca
E sai feliz, numa celebração de vida
Anima de pirata que nos saqueia
com carinho, malícia

Gente que nos penetra
Com sua alegria, seus cuidados
Suas atenções descompassadas e ilógicas

Gente que nos recebe, e
Traz o copo d´água do pote
Bendita pela amizade e pelo encontro

Gente que vem, e vai
Exultantes, exulberantes
Como a aparição do arco-iris
Numa dessas tardes gris.

Esperando

Paramento-me
Espero a tempestade
Como um copo, um acorde solto,
Sem solução, ou melodia vaga

Há solidão e solidez do segundo impenetrável
Nenhuma carícia, riso, aceno
ou prenúncio favorável

Sob a pele, ainda, um argumento chulo
Como uma fonte pétrea, uma luz mortiça
Que parcamente ilumina...

(De pele, essa couraça de repelir lágrimas)

Choro, enfim, por dentro
Como um rio que transborda, sangra e fere
Essas margens imaculadas.

domingo, 20 de abril de 2008

Inacabado

Talvez
o que a gente chama de amor
seja só
cumplicidade da carne
e da dor
se nao se (nos) pertencer

eu e você
somos sós
um retrato de nós
enredados na irrealidade
dos nossos lençóis.