quinta-feira, 13 de maio de 2021

Necessárias, mas chatas prá caralho!

 

por Edson de França*

 

Mais que instituição de formalidade institucional, a reunião é, antes de tudo, o instituto basilar da burocracia. Os burocratas, sejam de estabelecimentos privados ou públicos, adoram contar com esse instrumento entre os seus mais caros modus de administrar uma equipe.

A rotina dos homens do mundo corporativo é preenchida com a participação em reuniões. No setor público, sempre que um “pajé de ocasião” tem um “nada a dizer” convoca uma só pra manter a sua “fama de mau”.

Não sei como funcionam as grandes reuniões de negócio, onde milhares ou milhões de dinheiros são negociados e grandes acordos financeiros-produtivos firmados.

Conheço reuniões de emprego – quando alguém debulha suas qualificações profissionais para outrem que oferece uma oportunidade de trabalho -, de grupos – como os festivos encontros da rapaziada barulhenta dos clubes de jovens; da formalidade estatal – quando um chefe de um poder recebe chefes de outros poderes ou representações do mundo corporativo e, finalmente, das reuniões intra-organismos.

A maioria absoluta das reuniões são orientadas por uma pauta pré-definida, geralmente atendendo a alguma intercorrência ocorrida na rotina norn

Por principio, a reunião é uma ocasião pré-determinada administrativamente para apresentar, estudar ou discutir determinado assunto relativo a rotina institucional. Faz parte do manual, digamos, dos administradores e das rotinas administrativas, aquele conteúdo básico que se aprende nas escolas de formação de chefetes e lideres de qualquer ordem.

Consta do repertório de procedimentos a que se recorre para promover certa coesão entre as determinações gerais e as condutas particulares, unificar procedimentos, comunicar inovações e equacionar problemas e diminuir ruídos relacionais ou de produção do trabalho.

Reuniões deveriam atender a necessidades especificas, ou seja, cumprir a missão de, uma vez reunido um contingente funcional, provocar o entendimento e a concertação entre os atores. Compor uma situação de comunicação em si que seja, ao longo do tempo, convertida em ações; ações que, ao fim, venham a contribuir para a produtividade no trabalho e também para a redução dos hiatos relacionais.

Fora tudo isso, o básico, a reunião torna-se apenas uma contingência, um “sei que lá”, sem qualquer atributo que a qualifique ou demonstre sua existência e utilidade. Se ela não consegue influir, ao fim da ritualistica, na condução dos propósitos de uma aglomeração humana voltada para a produção, nada feito.

Muitas reuniões só existem por existir. Complementam o estatuto do ócio operacional das organizações. Pecam pela falta de objetividade. Se primassem pelo dado objetivo, muitas pautas de reuniões poderiam ser mortas por mensagens diretas, utilizando a acessibilidade das redes. Em muitas outras, se o critério da objetividade fosse cumprindo, evitando-se a extensão do discursos e das intenções natimortas, não durariam mais que meia hora (ou menos) cada uma.

*Jornalista, cronista e poeta.  

Do povo? Como? Por que?




Toda porcaria que ganha alguma projeção é prontamente atribuída ao povo. Basta guardar ao redor de si referências jocosas ou extravagantes e já se rotula “povo”. Uma afinidade, mesmo que remota, com o comportamento espontâneo do porção populacional mais pobre e já se gasta o decalque “povo”, como estigma feiamente colado às costas. Se algo cheira forte, tendendo para qualquer dos extremos da paleta olfativa, é coisa de “povo”. Enfim, o “povo” é tomado como sinônimo de tudo que se limite com o mau gosto, a má educação, os maus modos, o histriônico, o risível, o violento. 

Alheio ao conceito sociológico, antropológico ou político, a categoria “povo” é atribuída, pela ação limitada do senso comum, ao estamento mais baixo da população. Aquele em que as condições sócio-econômicas levam a habitar, consumir e assimilar hábitos condizentes com o ambiente em que se vive e, sobretudo, com o que se ganha. 

Esse mesmo “povo”, se visto de forma otimista e épica, seria a parcela de bravos sobreviventes; espécime tendente ao improviso vital e as adaptações para sobrevivência cotidiana. Mas essa não é a história/visão assimilada pela maioria. Para essa, a baixaria, a grosseria, o exotismo no seu sentido mais esdrúxulo são atributos do pobre, do paupérrimo, do sem instrução, do rebelde, do despossuído, dos periféricos de toda ordem.  

O “povo” tomado como categoria depreciativa, em alguns pontos, se limita com o “popular”. Mas, este último, mesmo quando pego desprevenidamente, ainda ganha uma lustração; emprestam-lhe uma certa aura de qualidade, uma distinção. “Povo”, não. O vocábulo “povo” sempre é rebaixado ao pior do ser humano e tem a pobreza como modelo. 

Se surgem produtos de mídia que sejam pautados pela dissecação das entranhas do “mundo cão” chamam-no de popular, no sentido negativo de ser coisa do “povo”. Foi espetacular, circense no pior sentido, sangrento como o antigo matadouro de Cruz das Armas, não levanta dúvida, é popular, é do “povo”, é do povão. Se aparece uma estrela televisiva de alta popularidade e audiência e baixo caráter, a geral apõe logo um “povo” como sobrenome ou marca do indigitado.  

O povo, na real, tem muitíssimas qualidades, todas elas atreladas a seu modus de enfrentar a vida, encarando obstáculos, superando adversidades, criando sua própria cultura. Sendo ademais vítima maior das incompreensões e das sacanagens dos governos de plantão e do sistema que não o reconhece, nem em nada favorece. Acima de tudo, porém o povo exala alegria. Não inteiramente por autocrítica, ri de si mesmo. 

O povo é o que é por questões objetivas, materiais, excludentes. Aqueles cuja mentalidade só vai até onde a compreensão intui o povo como sinal de pobreza e baixaria carecem de estudo e sensibilidade. Descerem dos salões emplumados e verem, daqui de fora, pralém dos jardins, como são ridículos e decadentes os atos, os fatos, os modos e bolor das elites.


por Edson de França


Nosso inferno brazilis e a piada das latas (republicação)




É dia de chuva na cidade. Dias de chuva geralmente nos põe melancólicos prá danar. Dias de recolhimento, meditação, preguiça, caldos quentes. Na teoria. Na prática das ruas centrais e arrabaldes são horas de apreensão, vigilância e esforço. Muita força física empregada na redução dos danos provocados pelas forças da natureza. Força primal que desencadeia outras forças, gerando um efeito dominó. Torrente que descamba no desespero e na desesperança. 

O Brasil e suas cores de bandeira esmaecidas… Uma nação que ilude os crédulos e distraídos cidadãos. Uma nação, cujo sentimento cívico é manipulado por espertalhões e parasitas. Uma nação a que falta o sentido de organização, logística social, sensibilidade pátria e frátria. O exemplo recente da expansão da pandemia e a patuscada governamental pela aquisição de vacinas, a propaganda da crendice em torno de um medicamento inócuo são a nossa herança, nosso cotidiano, nosso legado. Produzi o texto a seguir há um tempo, lancei no blog em 2015, Só me referi as nossas mazelas permanentes.



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Muita gente deve ter dado risadas com uma piada sobre latas que traçava um hilário comparativo entre um inferno de ilustre nação e o nosso. A anedota, para quem não conhece, narra o dilema posto a duas almas recém- desencarnadas em sua chegada ao salão celestial: a escolha entre o diabo e a caldeirinha das duas nações.

A graça ficava no fato de que, na hora da triagem condenatória, caso escolhesse o inferno brasileiro, o infeliz era obrigado a comer três latas de excrementos por dia, enquanto ao “felizardo” do inferno rico caberia a mixaria de uma lata diária. Piadas que envolvem excrementos tem o estranho poder de provocar risadas espontâneas.

A religiosidade na entrega das latas nas duas filiais das hostes do capeta era o diferencial. A graça e a picardia da estória em si. A embalagem e entrega do produto de indigesto consumo no inferno americano era pontualíssima. Nele, uma lata diária era uma lata diária.

No nosso, ao contrário, se revelava um pouco de nossa balbúrdia estrutural. Um dia faltava lata, num outro faltava merda e, na maioria dos dias, quem não comparecia ao expediente do trabalho sujo era o entregador. Moral da história: melhor era viver no inferno brasileiro, pois comer merda ainda vá lá, a regularidade do ato é que é pau..

As anedotas como esta revelam enormidades sobre nossa capacidade de rirmos de nós mesmos. A seu modo, revelam um potencial de autocriticidade mordaz.

Por outro, parecem exaltar virtudes em pontos onde somos visivelmente deficientes. Algo como se afirmar que as coisas abaixo nas terras brazilis estão fadadas a serem assim mesmo. E que, portanto, conformados, é bom encaixarmos essa situação em nossa mentalidade mediana, rirmos e apenas sermos conscientes de nossas mazelas.

Revela, por fim, infelizmente e sobremaneira, a cruel totalidade de nossas falhas estruturais e estruturantes. O inferno lá descrito é nossa imagem no espelho. Cagados e cuspidos, nem na entrega rotineira da ração malcheirosa conseguimos ser eficientes. Nesse ponto, diria que a piada estaria completa caso enaltecesse também nosso papel de mazeladores.

A piada dos infernos deveria nos servir para gerar indagações. A princípio, bem ou mal, dispomos de estruturas de serviço, de gerenciamento, de participação, de locomoção. Dos mecanismos de elaboração de políticas públicas às estruturas de pavimentação de ruas e logradouros, passando por serviços de saúde, educação e segurança. Temos a estrutura, a lei, os planos, o material humano, as ações cotidianas.

Se temos tudo isso, o que nos faltaria, então? Acho que além do riso autocrítico temos que rever a noção e extensão de nosso inferno. Dos enlatados à base de esterco humano que somos instados a engolir como ração diária e que produzimos sistemática e profusamente.

Tomemos o exemplo de nossas cidades, independente de seus limites e extensão, diante das chuvas de fim de verão. Atoleiros, calçamentos revirados, alagamentos em bairros “nobres”, deslizamentos em bairros pobres, surto de dengue e chikungunya, filas de crianças e idosos em postos de saúde, atendentes mal-humorados e médicos mal formados e sem sensibilidade social e humana.    

Por aqui, convenhamos, falta a cobrança mínima de regularidade por parte dos entregadores de nossas sagradas latas diárias. A falta-nos a seriedade, falta-nos governança, falta-nos o equilíbrio dinâmico de consertar as coisas antes que se tornem metastáticas, falta-nos participação e cobrança.

Infraestrutura de vias, estrutura de transporte público, inoperância das empresas que administram serviços básicos como água e saneamento básico. Sem contar, claro, com a indefinição de responsabilidades. Federação, Estado, prefeituras, diretamente ou via autarquias, não tem uma cartilha definida de responsabilização. O jogo de empurra serve ao propósito de minorar a urgência urgentíssima de certas providências.

 Se formos perguntar, porém, a algum responsável, fatalmente eles creditarão a culpa a São Pedro e sua incontinência pluvial. O tempo e a hora de atuação não são respeitados por aqui. No final, sobra para nós a impressão de que se um dia falta o conteúdo da lata, noutro a própria lata e em outros o entregador falta ao trabalho é que nós, sem percebermos, vivemos é mesmo dentro da lata compondo, junto com conteúdo, um cenário de situações indigestas, e penosamente compartilhadas.


por Edson de França    


sexta-feira, 16 de abril de 2021

Crônica de uns dias à toa


Edson de França*


"Entrar por uma viola e com ela sair cantando". Quase consigo ouvir a voz de Neruda, poeta pacífico, aqui do lado de meu providencial leito de mar. Atlântico de corpo e alma - nascido, criado e encarquilhado pela brisa marinha - aprecio o poema como quem mira os horizontes procurando deuses abissais que, vez ou outra, emergem para seduzir donzelas e tomar uma com os “mano” num boteco à beira mar.

A voz de Cátia de França, um desses seres maragrestinos, dá-me uma cantada. "Esse verde que chega a doer das águas de Tambaú...um dia vou voltar". Da terra "vem-me a ânsia de viver e de ficar". Este vem a ser o final de um poema, "Cemitério no campo", do alemão Herman Hesse. Parodiando o pacífico Neruda, adentro-me, irmano-me feito peregrino, à caminhada com o poeta e com ele sigo cantando.

“Nada vejo por essa cidade que não passe de um lugar comum”. Salves, Zé Ramalho, oitenta anos de galopes rasantes. Passei a amar minha terra quando conhecida como “terra das acácias”. “Badionaldo na praia do Poço. O hotel Tambaú, que colosso. Cabo Branco e Astrea charmoso, são recantos encantos enfim”, cantava o bardo Livardo Alves. Arrematava. “Tuas praias formosas. Mulheres, acácias e rosas. É cidade jardim, poema sem fim”. O Badionaldo continua lá pra quem quiser conhecer. O Astrea minguou, mas ainda é possível ver o mar a partir do mirante Cabo Branco. 

Não conheço as acácias. Conheço os abricós de macaco da Praça da Independência. Conheço ipês floridos do Parque Arruda Camara. Lembro-me do abricó, fruta exótica, que o velho trazia do Horto Simões Lopes. Lembro tanta coisa...Adoro o trour lírico, roteiro sentimental pelas ruas da cidade. Retomo o poeta Eulajose Dias de Araújo, primeiro poeta nativo de minha memória afetiva. Viajo na poesia de Polibio “varadouro” Alves. Sinto-me joaopessoalmente como o poeta Lau Siqueira. De outra, como o Vital cantador Farias, “Essa linda Philipéia, digo joãopessoalmente, que não sai da minha idéia, que não sai da minha mente.  Aperto a mão de Caixa D’água no beco da escola de artes do Tomás Mindelo.

Olhava dia desses os passantes - alguns apresados, outros em velocidade de cruzeiro – no largo do Ponto de Cem Réis. Numa crônica reportagem antiga, lá nos tempos de aluno da Comunicação, eu e o parceiro Roberto Faustino,  referi-me ao jornaleiro Reginaldo e ao propagandista Vitorino, este último que na época fazia reclames das lojas com um carrinho munido de autofalantes. Já não estão mais entre nós. Mas, como cantava o poeta argentino Jorge Luis Borges, quadros não recebidos ocupam um lugar meio psíquico a quem foi prometido. As figuras do mundo ativo permanecem vivas, pelo menos enquanto por aqui flanarmos. 

Quem passa pelo Cem Réis, com um mínimo de mediúnica sensibilidade, sente a energia ancestral de quem por ali passou. Quem passou, quem parou para contemplar ou se sentou para papear com amigos, quem tirou seu sustento de alguma atividade econômica ali desenvolvida. O largo do Cem Réis foi/é palco para discussão política, para propagar e ruminar as novidades palacianas de perto e de além mar. Lugar onde os velhos digerem, com comentários picantes ou reacionários, a tatuagem de Anitta e o uso do Anita para prevenir a Covid-19.

Lembro-me da areia branca do terreiro da casa de tio Severino, numa Tambaú desabitada, cuja nobreza estava nas areias pisadas pela gente pobre. Os pobres venderam suas terras, premidos pela urgência desenvolvimentista de colocar o luxo à beira-mar. “Além do limite do vale profundo que sempre começa na beira do mar”. O mar é para todos, mas para morar na boca do tsunami é preciso ser, no mínimo, desembargador e construir uma mansarda com recursos públicos. 

“Em suas mansardas, mansões e motéis, os homens manejam os seus carretéis. Novelos e linhas, labirintos e ruas, as mulheres e luas são pedaços da noite”. A urbe, pessoa, é contraditória. Somos, gente como a gente, contraditórios. Consumimos nossa alegria e carnavalizamos nossa dor. Bradamos aos mundos que nem Chico Limeira. Nossas ruas, nossas praças, nossa cidade tem denominação “imprópria”. Palmas para a novíssima geração do canto paraibano. Sou essa cidade múltipla, véio, e isso dá um orgulho danado. Daqui vejo o mundo, vejo meu mundo, sensibilizo-me e canto. Cantando dessa folha-palco onde me sustento, abro o peito e meu canto rasga o universo para atingir as estrelas. Há encantos e cantos a serem lidos, revisitados, vividos.

*Jornalista, cronista e poeta.


quarta-feira, 17 de março de 2021

Da vértebra dos noticiários

 


Um peso!

            Por várias vezes, no decorrer da pandemia, o presidente JB se reuniu, pontualmente, com dois públicos. O povaréu dos rincões do nordeste e os produtores rurais do Centro sul. Com os primeiros fez reuniões a céu aberto, quando da inauguração de cacos de obras e, como é de sua natureza, ignorou todas as recomendações sanitárias de uso de máscaras e distanciamento social. Com isso talvez quisesse exortar o povo a também ignorar as medidas de prevenção contra a Covid-19 e correr para trabalho, sob sóis a pino e vírus galopante a fora.

Duas medidas!

            Para o segundo grupo, os capitães do agrobusiness, as reuniões acontecem sempre em ambientes climatizados, onde não se dispensa os coffee breaks e a água mineral de boa procedência. A esses, a pauta presidencial reservou, sempre, um pomposo “parabéns” pelo setor não paralisar o Brasil durante a pandemia. Mas vem cá, salvo minha ignorância vértebra, penso que o agro é um dos setores que menos propenso a promover aglomerações em sua base produtiva. Bem diferente, creio, do comercio urbano (mesmo o de produtos agro), do meio industrial e de algumas áreas dos serviços. Desconhecimento, equivoco ou má fé explicam os parabéns do  JB. X para as três opções.

Descrédito a galope!

            Além das lamentáveis perdas de vidas humanas, a pandemia de Covid-19, vai debilitar, em menor ou maior grau, muitos setores. Ao menos, quero crer, servirá para lembrar e conscientizar a muitos que o elemento gente é o motor real de todo engenho humano. Um desses setores a saírem chamuscados da crise, certamente, serão os planos de saúde. Já se percebia, há tempos, certo descrédito quanto a sua eficácia. A pandemia esta agindo para aprofundar a desconfiança. A redução da renda para motivar o desligamento de muitos. Cada vez mais, diante do colapso anunciado, a população intui os planos de saúde como planos de vida. Enquanto menos se precisar de sua cobertura e assistência, mantendo-se saudável, melhor para a sobrevivência dos planos. Cuida-te que o plano cuidará de ti.

Sandice em massa!

            Hoje o noticiário internacional dá nota sobre o assassinato de mulheres em spas, casas de massagem, nos Estados Unidos. O intrigante dos tristes episódios, segundo os relatos, é a origem das vitimas: todas de origem asiática. Analistas atribuem, ate mesmo seguindo uma das linhas de investigação policial local, que esses casos podem ações residuais do discurso xenofóbicos do ex-presidente Trump (o homem do topete amarelo) em sua pregação sobre o tal vírus “chinês”. Compreensível. Um líder deve saber do alcance de suas palavras. Talvez sua fala não repercuta nem crie eco dentro de sua casa, junto aos seus. Uma vez propagada sempre acabará caindo num terreno baldio e vagabundo, propenso a executar ações homicidas por uma causa que às vezes nem busca saber os porquês.

 

Ensandecidos se atraem

Palavras desequilibradas ativam os mecanismos da insanidade coletiva e individualizada. Pode parecer expressão carregada, puro senso comum, mas a palavra percutida às avessas, geralmente encontra com quem se afine. Como uma ordem de comando lançada ao cérebro de forma intempestiva e violenta. Mal comparando, como uma ordem de serviço vocalizada no ouvido de um recruta. Não há espaço/tempo para reflexão. O terreno é extremamente fértil no vazio das mentes dos insanos, onde é possível o concerto afinadíssimo entre os ideais, princípios, preconceitos, desvios, reacionarismos e dogmas sociais de quem emite e quem recebe mensagens.

por Edson de França (Jornalista, cronista e poeta)

domingo, 14 de março de 2021

Enquanto sobem os créditos finais

 



por Edson de França
*

“E foram felizes para sempre...”. Com essa frase todo conto de fadas se acaba, deixando no leitor nenhum gostinho de “quero mais”. Ela é definitiva, fria, pétrea. Trata-se de um artificio, utilizado por autores de antanho, para aquietar a turbulência de espirito que o leitor experimenta durante o desenrolar das desventuras das personagens na narrativa das estórias.

Encerrou-se e pronto. Não há dia seguinte possível. Nenhum convite expresso à mente para imaginar um prosseguimento, um caco sequer, uma palavra além. Tá sacramentado, sanitizado, salubre, asséptico, glacêificado com massa de biscuit. Tudo está no seu devido lugar. Dá a impressão que, de repente, alguém meticulosamente compôs um instantâneo e fixou para sempre uma cena onde todos os elementos estão encaixados e apaziguados entre si e consigo mesmos.

Ah, se a vida tivesse a consistência dos contos de fadas!. Certamente brigaríamos muito mais pelos tais finais felizes. Seria uma grita geral pelo congelamento de instantes, situações formatadas idealmente que se reproduziriam ad eternum. Mas, como diria o poeta, “a vida não é filme!”. Precisa-se também entender, segundo outro poeta, que “o prá sempre, sempre acaba!”.

O THE END, final do relato ou da estória, pode vir a significar (ou sugerir) uma imensidão de possibilidades como cabe à própria vida que nos sobressalta. O que advirá no período pós The End? Pode bem significar uma sucessão de dias de gloria, conquista, amor e paz ulterior. Mas, também, pode ser aquele momento assombroso em que, os personagens vão sumindo em fade out, descaracterizando-se, enquanto os contra-regras vão desmanchando e reorganizando o cenário para o inicio da contação de contar uma outra estória.

O que sucede ao the end, aqueles territórios aonde a mente não pode ou se nega a ir, é, na realidade um roteiro ainda não escrito. Nenhuma especulação ou ansiedade responde a ele de pronto.

Li dia desses uma interessante narrativa sobre o desejo de anonimato que marcou a trajetória de Debra Winger (1955 - ). A atriz americana, famosa nos anos 80 por participações em filmes como O céu que nos protege (1990), A força do destino (1982), Cauboy do Asfalto (1980) e Laços de Ternura (1983), conviveu em pé de guerra com a indústria cinematográfica hollywoodiana, em virtude das exigências, da exposição forçada e da frivolidade dos roteiros.

Nesses últimos particularmente, dizia ela, a escassez de criatividade contribui para o investimento maciço em produções edulcoradas na medida certa para atuações bizarras e consumo por parte de um público pouco exigente. Limitantes, diríamos, para atores verdadeiros e campo fértil para proliferação de celebridades de magazine. Chamou-me particularmente atenção para o conteúdo das estórias, sobretudo quando se refere aos finais de narrativa.

Em suma, a atriz quer dizer que a vida – na essência e na dinâmica – não é composta de marcações teatrais, personalidades bem formatados e roteirizações de vida bem definidas. Ou seja, todo final tanto pode ser um final – seja feliz ou infeliz -, mas também pode ser a abertura de um outro mundo, uma nova estrada, uma nova maneira de pensar e encarar o mundo, um enigma enfim. “Gosto de finais enigmáticos. (...) Desenvolvi alergia aos finais fechados porque nos fazem sentir que a vida terá um clímax”, diz ela.

A vida tem clímax, sim, apenas no momento em que surge o the end na tela, o fim no romance de trocentas páginas, só. No momento em que começa a escalada dos créditos finais do filme. Mas, lembrando outro poeta da musica popular, “Os sonhos não terminam como um disco. Estrelas não se apagam ao tocar. O amor não é um filme, Jezebel!”. Na real, o enigmático é o que prospera com o nosso dom – não nato, diga-se - de descrer das permanências. O importante é apostar sempre no que pode vir a nos surpreender depois da palavra, da composição do quadro e dos créditos finais.

*Jornalista, cronista e poeta

Decifrando reticências


 

               


Abuso de reticências. Já abusei mais, mas deixei de usar do expediente ao conhecer a palavra reticente. Esta ultima que dizer exatamente “que ou quem age com reticência diante das situações; que ou aquele que hesita, que vacila”, tendo como sinônimos as palavras quieto, calado, fechado, reservado e indeciso. A reticência pode ser considerada como típico comportamento da pessoa que não tem nada a dizer, ou tem imprecisão sobre o assunto que trata.

            Em meio a minhas atividades como jornalista e professor as reticencias aparecem como um problema. Um hábito capaz, unicamente, de gerar interpretações nada elogiosas por parte do interlocutor imediato. Quase sempre apontando para a “falta de informações” ou “insegurança” do retor, do emitente das mensagens. Colocando numa imagem aproximada, o gigolô das reticencias se expressa numa linguagem próxima da telegráfica, naturalmente lacunar.

            Me referi acima ao ato de interpretar e essa pratica, para além dos pré-conceitos listados sobre o emitente de uma mensagem, nos põe, quando profissionalmente, no papel de decifradores de reticencias. Ou seja, tentamos adivinhar aquilo que a pessoa não disse ou não teve condições de elaborar. Quando se fala de informação objetiva não se deve recorrer a figuras ou recursos estilísticos. Reticencias fazem bela figura na construção poética, sugestão estilística para o devaneio do leitor.

            Decifrar reticencias é um exercício onde o escrevinhador tem, forçosamente, que recorrer ao arsenal da imaginação, dos conhecimentos prévios e dos malabarismos verbais para expressar a mínima ideia. O jornalismo, assim como outras atividades, detesta o vazio da pagina. Não se cria com lacunas. A motivação do mesmo é informar da forma mais completa possível. E isso exige um monte de palavras, de preferencia precisas e exatas.

            Trabalho de certa forma árido, digamos. Após o exercício de imaginação, o autor, notavelmente se dá por satisfeito. Criou em cima das parcas ideias fornecidas, das ausências de argumentos e de informações básicas. Hora de devolver o texto à fonte para os últimos ajustes. Aí vem a surpresa. A fonte não age tão laconicamente como na hora do contato inicial. Discorda do texto pronto e se sente, como nunca, no direito de refazer integralmente as ideias escandidas que foram motivadas pela sua insegurança, fechado, indecisões e reservas.

por Edson de França