quinta-feira, 9 de abril de 2020

Do subúrbio ao centro

Vozes mais verdadeiras, ouvi
Vindas de uma gente que ao fim
Constrói de si mesmo uma imagem
Desconstrói e ergue a flor do cotidiano
Contam sua saga a qualquer outro fulano
Ainda que em pé durante toda a viagem 

São flores, vidas frágeis a se desfazer
Enquanto enfrentam dias quase sem saber
Da próxima hora, dos dias que virão
Consomem solidões, gastam-se em vícios tais 
Sua voz, contudo os faz imortais
De segundos tensos em dias de verão

Insensatez do asfalto, como falou o poeta
Bem vindos, então, a tal selva de pedra
Que bela só é vista de longa distância
De perto, nenhuma atração humana
Nas cercanias a correntaza insana
De dentro dor, desengano e ânsia

Seus enredos trazem muito mais que dor
Trazem resistência, enfim alguma cor
Pra enfeitar dias de leões bravos domar
Cordeiro entre feras, eis nossos heróis
Vão saculejantes, falantes, uma vez tão sós
Como a morrer de sede em frente  ao mar

São diaristas, domésticas, garis, mães, pais
Que espalham retratos de si tão reais
Para uma platéia às vezes insensível
Verdadeiras sagas postas em cromos
Que revela um pouco mais do que somos
No calendário vil de mundo tão sensivel

São sonhadores, pedra e desespero
Pra vida em volta trazem seu tempero
Para tornar os dias mais esperançosos
Guardam na fala rastros da existência 
Lutam, gritam mansos pela sobrevivência
Que bem sabem poderão não ter

Vão eles, dia a dia, desfilando nus
Carretéis de histórias  a tantos tão comuns
Que Não é sombra no deserto, nem miragem
São eles senhores, os donos da vida
Herdeiros dessa terra mais garrida
Ainda que mantenham-se à margem 

São passageiros do busão suburbano
Vão contando estórias pro cotidiano
De quem se dispuser a bem ouvir
Não pedem ouvidos atentos, nem agrado
É só mostra grátis do suor sagrado
No painel incerto dos dias de porvir.

(Edson de França)



Um café pro véio

Simples, impuro, preto
meio antigo, meio
amargo

Frio.

Derramado goela abaixo
antes
do providencial cigarro.

(Edson de França)

VINHO

É cor.
Não única, uma paleta
Do branco ao vermelho
Quase negro.

É prazer.
Do travoso, tanino
Ao vadio açucarado
Porre, dor…

É encontro
Copos, taças
Descartáveis corpos
Brinde a ti.

(Edson de França)

QUANTO MAIS VELHO…

Sou antes um mutante envelhecido
Dos tempos em que poeta, já tontinho
Explorava e abusava das metáforas
Sobre as relações da flor com o espinho
O que resta, porém, já ultrapassado, é
Crer na lorota do espírito do vinho.
(Edson de França 05/04/2020)

Dupla face da coroa

A coroa é símbolo ancestral
Expressão do fausto, da nobreza,
Do sangue azul, da descendência nobre
Ao olhar do ingênuo: divinal beleza.
Entanto, objeto de raro simbolismo
Tantas vezes esconde só a vileza.

Aparentemente contraditórias
Duas versões deixam faces nuas
Que equiparam o ser humano ao verme
Onde lê-se poder, leia maldades cruas
Vozes e atos que endeusam a ignorância
E ameaças mortais que esvaziam ruas.

Silêncio de vírus é ameaça concreta
Furtiva, invisível, ladina e real
É coroa por feição, formato, estrutura
Com que se apresenta afinal
Em humano é adereço ou idéia
Que sobe a cabeça e inspira o mal.


(Edson de França, 06/04/2020)

Deus
Impávido
Nem aí
Olha pela brecha.

Abstém-se da votação.

Vocês se criaram
Culpem-se.

Porção


Despertai.
Não são os deuses
que tem que olhar-se no espelho.

Deuses
São o que serão
E jamais mudarão de face.

Tu, humanamente 
estás, viverás, prosperarás,
morreras ao fim...

És deus
Reconhece-te a ti.