quinta-feira, 9 de abril de 2020

Deus
Impávido
Nem aí
Olha pela brecha.

Abstém-se da votação.

Vocês se criaram
Culpem-se.

Porção


Despertai.
Não são os deuses
que tem que olhar-se no espelho.

Deuses
São o que serão
E jamais mudarão de face.

Tu, humanamente 
estás, viverás, prosperarás,
morreras ao fim...

És deus
Reconhece-te a ti.

quinta-feira, 12 de março de 2020

O destino do Almagre



                


As ruínas do Almagre surgiram em meio ao campo recém-capinado. Afora uma árvore frondosa no centro do terreno, toda a vegetação em volta parecia ter passado por um processo de queima. Arbustos, galhos caídos e grama rala exibiam a coloração, entre preto e o amarronzado, que denuncia a passagem lasciva das línguas de fogo.

Estacas pré-moldadas formavam um simulacro de cercado, do qual os fios pareciam ter sido roubados. Antes das ruínas propriamente ditas, outra parede de folhas de zinco dizia, por sua vez, “aqui há uma obra em andamento”.
            Mas nada havia ali que sugerisse uma obra de (re) construção ou de produção do conhecimento para recuperação do bem histórico. Nada de operários, nada de pesquisadores. Nenhum visitante.
O centenário convento, um dos pilares da historia da Paraíba, jazia ali, semimorto, como um ancião mal das pernas sustentando por próteses emergenciais. Todo conjunto posava sustentado por escoras de madeira para as lentes que ousassem flagrar, ao que parecia, os estertores de uma massa em processo apresado de falência.
Pedras espalhadas ao redor formavam montículos que pareciam escorrer da construção principal. Ela, em verdade, parece derreter-se a olhos vistos. Um monumento aclamado que vai, aos poucos, dando adeus. Abandono e resignação.
A história nos conta que a Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, também conhecida como Igreja do Almagre ou Ruínas do Almagre, esta localizada na praia de Ponta de Campina, no município de Cabedelo, litoral norte do Estado. A igreja foi erguida no início do século XVI (1598), no contexto do processo de conquista do território e de catequização dos indígenas na Paraíba.
Não há referências à presença do templo na localidade em épocas anteriores. Ele aparece nos registros, em 1804, como parte da propriedade da Praia do Poço e é descrita como uma “igreja de pedra e cal coberta de telhas”. As ruinas encontram-se tombadas desde 1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Hoje, elas se encontram em áreas particulares, havendo um acesso provisório ao local.
Eis o destino dos monumentos históricos a céu aberto, dos museus, da memória, enfim, da cultura brasileira em si. No brasil sobram recursos para a arrogância e a prepotência; faltam, porém, para a sensatez e a temperança. Esbanja-se no financiamento da desimportância que elogia a burrice. Relega-se à condição de mendicância a inteligência, o conhecimento, a preservação da memória.  
No caso do Almagres, como no caso de muitos outros monumentos, há situações burocráticas e pendencias junto à justiça que impedem uma ação efetiva de recuperação da área. Mas até mesmo os projetos que parecem dar um alento não ganham a continuidade merecida.
Em 2016, prefeitura e IPHAN anunciaram uma parceria em que a área seria limpa, sinalizada, cercada, teria as vias de acesso pavimentadas e toda área iluminada, além se serem definidas a inclusão do monumento no roteiro turístico da cidade, bem como os critérios de visitação. Também estavam em pauta estabilização das ruinas e a recomposição do monumento através da recolocação dos elementos em suas posições originais.
Aos olhos da época soou auspicioso, o plano. A preço de hoje, o item conservação – mesmo emergencial, como se falou a época - passou longe.
por Edson de França (Jornalista, poeta e cronista)      




quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Nas entrelinhas da notícia




por Edson de França*
A notícia

dava conta que um grupo de moradoras de endereço nobre da capital, o charmoso Cabo Branco, teriam procurado a vereadora Helena Holanda, pessoa ligada às causas das pessoas com deficiência, para "recomendar" o deslocamento de um projeto de inclusão, desenvolvido no local. A justificativa apresentada por elas é que a presença daquele publico no local, aos sábados, além de enfear, tiraria o sossego dos "ilustres" moradores.

Soou

surreal. Tanto que algumas pessoas chegaram a duvidar da veracidade da informação, creditando-o a um possível marketing eleitoreiro por parte da denunciante. Sou dos que apostam na veracidade do fato. Não duvido da ardilosidade de nossas "elites" em compor enredos, a sorrelfa, dignos de uma roteiro de bizarrices e abjetividades para Pasolini filmar. Pergunte-me ao final que são realmente os deficientes. Os que buscam por dignidade ou aqueles que abusam da prepotência, teoricamente tendo tudo nas mãos, inclusive, o direito de serem agressivos e desrespeitosos com a condição humana?

Concordei

com todas as análises feitas por profissionais e internautas sobre o comportamento das corocas do Cabo Branco ao propor o fim de uma ação social em prol da inclusão da pessoa com deficiência. Quem ergueu a voz ou empunhou a pena tocou na ferida. Verifica-se nas entrelinhas do ato a escândalos idade de uma mentalidade preconceituosa, higienista, excludente e arcaica. Ela anda sempre se fingindo de morta. Momentos, porém, como o atual parece favorecer o seu arrogante desabrochar.


Outra

proposta indecorosa das quatrocentonas senhorinhas, de acordo com a vereadora, seria a instalação de portões para isolar a praia, ou seja, criar um ambiente de acesso restrito. Uma praia particular. Não me surpreende. Pelo desejo supremo da nossa caquética elite da capital com seu impróprio nome, o tal muro ou portão deveria ser estrategicamente colocado a altura da rua Tito Silva, nas proximidades do Clube Cabo Branco. Assim a ralé, salvo talvez a descida dos blocos onde a "massa" serve pra fazer números e bater recordes de público, só teria acesso nos dias úteis a trabalho. Muito mal pago, diga-se de passagem.

A busca

pela otimização do atendimento aos usuários dos serviços de saúde passa obrigatoriamente pela qualificação dos profissionais. Isso é fato. Porém, há outra preocupação que começa a se expandir no meio que é a atenção ao bem estar desse segmento. A consciência que se forma é que um profissional desequilibrado, física e mentalmente, atuando em um ambiente estressante não rende bem. Assim como, um local onde possam relações humanas insalubres não rende boa produção por mais qualificação ou destreza laboral que o profissional ostente.

Ações

é que não faltam nesse sentido. O "Cuidando do Cuidador" é uma das iniciativas que atendem a essa necessidade. A proposta do movimento é introduzir técnicas de autoconhecimento, aliadas a práticas integrativas, para promover a saúde integral dos profissionais da saúde. Seguindo essa inspiração, o Hospital Santa Isabel, de João Pessoa, criou o “Espaço Florescer” para realizar procedimentos terapêuticos de apoio a saúde física e mental dos servidores.

Mais uma

iniciativa partiu da Secretária de Saúde de Cabedelo, via Coordenação de Saúde Mental, que na última semana detonou um processo de multiplicação de promotores de saúde mental, uma alternativa possível para o arejamento dos ambientes de trabalho com a saúde. São propostas e ações direcionadas, preponderantemente, a saúde do trabalhador, mas sobretudo ao atendimento dispensado ao usuário final dos serviços de saúde. Investir na humanização é levar em conta todos os elos da corrente.

*Jornalista, cronista e poeta


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Teologia da sublimação


Edson de França*

Imagine um monte. O bíblico Sinai ou o mortal K2 himaláico. Ao sopé de qualquer um deles, imagine-se. Você não passa de um minúsculo e insignificante ponto. Frágil, ignorante, embasbacado diante da grandiosidade pétrea cabe-lhe tão somente admirar e sonhar com o topo. De lá, quem sabe, outra visão da terra. Do alto; serias, também quem sabe, uma outra pessoa, portarias outro status.
 O topo do monte seria, por nossos critérios materiais, introduzido no imaginário como o ideal da ascensão. Ascensão social que está atrelada às conquistas financeiras, do conhecimento do poder e proeminência sobre os semelhantes. O topo entre nos é visto como a meta, o ideal, a conquista derradeira. Estar no ponto mais alto, no cume da montanha é possuir, mas sobretudo projetar uma aura de poder. Para tanto é preciso subir o monte.
Falei de conquista e reuso o vocábulo. Conquistas, por vezes, nem carecem de materialidade: a simples sugestão de que as detém permite ao possuidor imprimir uma marca e, entre os seus, amealhar respeito.
O mundo endeusa os conquistadores, os que estão ou parecem ter ido ao topo. Aos vencedores, seja pessoa comum ou rara, a posse de uma bela habitação, um endereço nobre, um automóvel da moda, um titulo nobiliárquico, um alto posto político-administrativo ou um enfieira de títulos dos píncaros acadêmicos impressiona bem. 
O catecismo de algumas congregações neófitas, ditas cristãs, usa Deus abertamente para abrir portas que levam o comum das gentes a ansiar por conquistas. Fortuna ancorada até as raízes nos tais “sinais exteriores de riqueza”. Teologia da prosperidade.
Para receber das mãos de Deus as Tábuas da Lei, o teimoso Moisés teve que secar as canelas na subida, enfrentar a solidão e o desamparo suar frio e desafiar a incredulidade, quem sabe o escarnio, de seu povo. Para conquistar o K2, arrisca-se a vida, entregando-se ao frio inclemente, ao risco de hipotermia e à ameaça das nevascas ameaçando a toda hora transformar o vivente em fóssil preservado para estudo das gerações vindouras.
Quem viveu, enfrenta ou frequenta a rotina da vida acadêmica convive diariamente com exemplares prontos e acabados de historias e “estórias” de sucesso. No primeiro caso, as pessoas que tem de fato méritos garantidos por seu empenho e competência. No segundo, as que fingem ter conseguido chegar ao topo. O sucesso acadêmico é um troféu que muitos desejam, sobretudo para ostentar.
 Muitos desejam a glória acadêmica, seja conseguida por estudo ou osmose. Curiosamente a horda que ora ocupa a cena politica já foi flagrada, em vários momentos, utilizando-se de ardis para mostrar sua carga acadêmica. Valem a procedência da diplomação, a proclamação pública de títulos conseguidos deus sabe-se como, a inclusão de titulações no currículo e, por fim, quando há um traço de verdade, o trabalho mostra sinais de desonestidade intelectual.
O tempo atual pôs em cena a “teologia da sublimação”. Talvez em época alguma ela tenha conseguido tanta visibilidade e amealhado tantos adeptos. Trocaram o ser pelo ter. Não é importante lutar para ser um intelectual, mas dar a impressão de que se é um, mesmo a custa de títulos comparados e trabalhos forjados na mais refinada técnica de “copia e cola”.


*Jornalista, cronista e poeta


“Lá fora” não deve existir mais




Edson de França*

Foi-se o tempo em que a atitude mais natural em relação ao lixo produzido nas residências era o “jogar fora”. O destino final dos resíduos de toda ordem eram os lixões nas periferias das cidades. Locais insalubres e esquecidos que se tornaram lar de insetos, roedores, urubus, em primeiro plano mas, sobretudo, de uma fauna humana desassistida e faminta que buscava ali algum meio de sobrevivência.
Talvez devido às dimensões continentais, aos problemas estruturais e a própria educação do povo, ainda tenhamos que conviver com locais dessa natureza. Sua existência, contudo, se inscreve dentre as mazelas a serem extirpadas. Uma nova mentalidade se impõe e, gradativamente, seremos forçados a adotá-la. Há uma necessidade premente de mudança de hábitos, comportamentos e atitudes em relação ao lixo nosso de cada dia.
É preciso encontrar soluções que contribuam para o banimento total dos depósitos de lixo a céu aberto e, sobretudo, considerar o potencial econômico dos resíduos resultantes da coleta seletiva. Essa é uma demanda contemporânea para o qual os governos e população, cada qual em seu limite de responsabilidades, tem que fazer sua parte.
É necessário estabelecer políticas públicas por um lado e, por outro, investir na educação ambiental. Vontade politica e conscientização se irmanam nesse sentido. Processos de coleta, com regularidade e método; critérios de seleção, nas residências, cooperativas e, por fim, definição e estrutura da destinação final.
Há soluções pipocando por toda parte. Há uma legislação federal que regulamenta e aconselha as prefeituras a adotarem politicas que direcionem o tratamento com o lixo no âmbito das cidades. Cooperativas de catadores se espalham pelo país a fora. Mas esse círculo se fecha com a participação direta da população, já fazendo uma seleção previa dos rejeitos produzidos em suas residências.
Abre-se um novo panorama em relação a questão ambiental. Sabe-se hoje da urgência de tomada de algumas providencias para melhorar a condição de vida, sem agredir mais o planeta. Uma nova mentalidade tem que emergir, a causa ecológica-ambiental não é mais uma bandeira defendida pela geração paz e amor. O cidadão comum tem que sentir o peso do abandono dos cuidados com a manipulação dos resíduos. O “lá fora”, definitivamente, não existe mais.

*Jornalista, poeta e cronista




quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Entre craques e perebas



Assistimos futebol porque mesmo? Alguns dirão por paixão a um escudo, outros para sentir o calor da disputa e a emoção do gol, outrissimos ainda dirão pra passar o tempo e por aí vai. Por mim assisto futebol por gostar de futebol. Nesse caso me irmano com um amigo de Campina Grande, prof. Aguiar, que me confessava até futebol de moleques em campo de poeira o atraia. Digo o mesmo.
Durante muito tempo meu passatempo de fim de semana era acompanhar partidas do campeonato de bairros no campo do Jardim Planalto onde nasci. Isso, muitos anos depois de desfilar minha perebice futebolística nos campinhos de terra e nas peladas noturnas na Rua Patrulheiro Gilvandro Seixas, rua que atravessava a que nasci, em tempos de criancice e travinhas improvisadas.
Não sou espectador de fórmula I, esporte esnobe por Dna e excelência. Muito menos do tênis, com sua nobreza quase real; cenários impecáveis, clássicos, tersos, sem sinal das sujices. O futebol, apesar do glamour que exalado em competições series A ou torneios transnacionais, é praticado em cenários muito menos nobres, em alguns casos até insalubres. O espirito, contudo, mantém-se intacto.
Vejo no esporte futebol uma plástica, uma obra em permanente construção. Contudo com um tempo limitado para ser concluída. Mesmo nas peladas tipo 2 gols vira de campo ou no rodízio de peladas a racionalidade temporal impera. Contudo no tempo de duração de uma peleja, há um tempo outro: o do próprio desenvolvimento do jogo. Quadro composto em pinceladas tão rápidas que o olho não pode dormir.
Num piscar passou o tempo, foi-se a jogada. O momento iluminado passa, é efêmero. Uma vez acontecido o momento magistral não há repeteco. Restarão as imagens de Tv para lançar para a posteridade o feito. Já desbotadas, um dia, já no ocaso dos ídolos, elas servirão para um compositor atilado compor uma nova Balada N° 07. Toda essa magia não se faz sem a presença do artista principal: o craque.
O cara que compõe uma sinfonia em campo, destacando as notas como quem executa trechos em pizzicato. Toca em grupo, mas permite-se solar, viver sua própria epifania em contraponto aos demais componentes da obra. Sem tanta virtuosidade, digamos.
O craque é o cara que consegue por ordem no caos. Nada mais terrível de se testemunhar as estrepolias de uma bola tocada por pés inábeis. Nessas situações a bola que é doida por vida, enlouquece de vez, torna-se indomável. Parece e, na verdade, se diverte criando malabarismos só pra rir de quem não tem habilidades para dominá-la.

por Edson de França