segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Amor de Mar
Em si mesmar
mar que vem de fora
me apavora o coração
soul eu e você
dividindo a mesma solidão.
(em si mesmar - Edson de França)
me apavora o coração
soul eu e você
dividindo a mesma solidão.
(em si mesmar - Edson de França)
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
“Choro de pai"
Dei
o título de uma música de Beto Guedes a crônica por uma razão telúrica e
sentimental. Por reiteradas vezes desejo sentir o gosto e o cheiro da terra e
da gente simples. Nas estradas de terra ou nos nichos do asfalto busco
encontrar uma ligação sã com o que há de mais puro na face desse complicado
planeta. Tudo aquilo que há de mais despretensioso, sem ser gratuito,
fútil. E nessas horas lembro-me do velho
Maia, meu pai, e da forma como atravessou e encarou a vida.
Mesmo
dentro do quadro da ranzizice que acomete os mais velhos, como o frio que faz
doer os ossos, havia naquele homem algo de pueril, inocente, infante. Uma
morada longínqua e serena dentro dos olhos apertados que pareciam perguntar o
porquê das coisas. Um perguntar silencioso, contido, ao contrário das crianças
que interrogam os pais puxando-lhes as abas da roupa. Explosões naturais de
humor para quem já cansou dos percalços da existência mesclada a uma calma de
quem aceita, pacientemente, a inexorabilidade do destino.
Uma cidade pequena em transição entre ar de
cidadezinha qualquer e o espírito cosmopolita, uma pracinha, duas arvores
frondosas, uns desgraciosos, porém úteis, banquinhos de cimento, os olhares
espichados dos varões para uma moçoila que passa indiferente, um boteco de
ponta de rua, os “ois” e “boas tardes” de quem passa pra comprar pão doce pro
lanche da tarde, uma sombra mãe, uma mesa, uma cerveja gelada ou uma “de
cabeça” acondicionada em garrafa pet, um velho a observar a vida em uma cadeira
de balanço, um palco para chorões. Isso me faz pensar no transitório e no que
há de realmente permanente nessa vidinha besta.
Penso
num choro tocado pelo clarinete de seu João Maia. Pesco as ultimas notas como
pérolas. Deixo-me possuir pelo mundo e me irmano com o poeta mineiro e todo
resto de mundo.
A música é o veículo das coisas d’alma.
Afinação mais que absoluta do instrumento que sonda as regiões abissais do ser
e vem a flor da pele em movimento permanente. Ela parte de quem intui sons e os
arranja e os libera, ave de prata inefável, para dentro de quem ouve. Faz
morada no centro das sensibilidades. Enternece, desperta memórias, marca
instantes, afasta os maus espíritos e cria ternas moradas para os fantasmas amados
ou as evocações de um tempo outro.
O "choro de pai" se acerca da gente, despretencioso como um bando de borboletas que se convida a dançar no jardim para encantá-lo. São notas-borboletas de um colorido único. "Quem me disse pra não chorar/ Nem me perder por aí/ E tanto fez e refez, tanto faz/ das cordas do meu coração/ que bom choro de pai". Interrogam-nos sobre a natureza das flores que cultivamos. "Contou que para colher sempre tem companheiro/ Mas plantar é trabalho de quem vive só/ Me diz aonde caminhar e vence a vida por mim/ mesmo sabendo que eu caminharei por mim".
Seu João, sereno, me olha a distância e pede pra que eu pesque
mais uma nota com ele componha um novo acorde.
por Edson de França
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Inteligência social
Uma das expressões mais
significativas que aprendi nos últimos tempos é “auto-sabotagem”. Foi em
algumas matérias jornalísticas e ensaios sobre campo e oportunidades de emprego
na atualidade que a palavra me conquistou. O poder de síntese que ela agrega
dá-nos um mote explicativo para as condições (im) postas ao trânsito social da
juventude em nossos dias e de como as pessoas se armam para enfrentá-las.
Parece direito supremo a
possibilidade de a pessoa realizar-se, minimamente, em termos profissionais,
pessoais, afetivos dentre outros. A prática, porém, não pinta esse direito como
uma possibilidade real, mas um lance de probabilidades por vezes bem minúsculas.
É nesse instante, na hora de amealhar talentos, tendências e vocações para enfrentar
o mundo é que os sinais e efeitos da auto-sabotagem se fazem presentes.
A vida adulta, competitiva
por excelência, cobra dos novos, além das habilidades naturais e adquiridas,
uma percepção atilada, uma capacidade de absorção de conhecimentos e pitadas
generosas da “boa malandragem” para adaptar-se sem trair tanto seus princípios
mais arraigados. Na falta de qualquer uma delas, verifica-se a derrocada do ser,
o deslocamento, a irrealização. O certo é que ao lado das inteligências
múltiplas de Howard Gardner e da inteligência emocional – talvez fazendo uma
fusão dessas duas – há que se desenvolver certa “inteligência social”.
Inteligência social seria
a capacidade a ser desenvolvida de compreender com poucos toques a natureza da
vida. Seus caminhos, descaminhos, estrutura, lógica e mecânica. Além disso,
cultivar a capacidade de dar a cada evento de sua própria existência um
significado. Mais que um ser vivente, um ente com a capacidade de observar a si
e aos outros para montar modelos explicativos, refletir sobre eles e
automodelar-se. Enfim, gerar comportamentos que justifiquem sua existência, ou
a tornem, no mínimo, suportável.
Alguns passos, entretanto,
são de importância capital no processo. Perceber-se como elemento ativo e
empreendedor, primeiramente. Depois, agir como administrador de suas
potencialidades. Contribuem para isso o acesso produtivo ao conhecimento e a
noção clara da aplicação racional das energias nos engenhos da vida. Seja nos
campos pessoal, familiares, profissionais ou no trato social. Lembrando que é
sempre possível a autocrítica, a correção de rotas, a releitura.
A aplicação exagerada a
engenhos improdutivos é o sintoma clássico da auto-sabotagem. Por vezes, o
simples ato de negar-se a freqüentar uma escola, por exemplo, num país como o
nosso, é um principio desse tipo de automutilação. Podemos elencar outros como
os entrega doentia aos vícios de toda ordem, a paternidade (sobretudo a
maternidade) precoce, a falta de aplicação na qualificação, a falta do cultivo
de uma vida plena e sadia de relacionamentos, a negação a criação como
principio de vida e o desperdício vital em atividades robotizadas.
É preciso, então, dentro
da lógica do mundo competitivo e canibalesco ter atenção aos sinais perniciosos
de auto-sabotagem, do auto-entrave de possibilidades e caminhos de realização.
por Edson de França
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
A controvérsia dos polos culturais
Por
várias vezes escutei da boca de autoridades da cultura e, também, de pessoas
comuns a expressão “Minha cidade é um pólo cultural” ou “tal cidade é um pólo
cultural”. Não costumo discordar da afirmação, mas alguma coisa dentro de mim
se revolve como a exigir uma discussão ampla da “verdade” expressa nas
palavras. É que a expressão soa, na grande maioria das vezes, como um chavão ou
expressão destituída de significados palpáveis.
Penso
(e isso é natural em nós) que muitas vezes somos levados a reproduzir certos
chavões ou clichês. Todos produzidos pela propaganda institucional ou pelas
crenças enraizadas nesse inconsciente de fácil acesso que nos faculta o recurso
da retórica fácil. Recorremos às idéias preconcebidas, deus sabe lá por quem e,
por força do hábito, as utilizamos para propagar ou fortalecer nossas próprias
ilusões. O pior, entretanto, é que tais reproduções acabam legitimando certas (in)
verdades.
Fala-se
e escreve-se mais sobre cultura e efervescências culturais do que realmente
vive-se uma atmosfera cultural na maioria absoluta das cidades em que os
zelosos moradores afirmam reinar os tais “pólos” culturais. Na realidade, a
cultura a que se referem se trata de manifestações pontuais, específicas e
insignificantes do ponto de vista de vivencia cultural de uma localidade. Na
maioria das ocorrências, trata-se de uma “cultura de vitrine”, destituída do
enraizamento, do compartilhamento, da participação coletiva e de multiplicação tácita
de ocorrências.
Uma
“cultura” de eventos episódicos tão somente geradores de “souvenirs” imateriais
para o orgulho nativo dos intelectuais da província e a propaganda oficial da
cidade. Claro que para quem pretende visitar uma cidade qualquer, a tal
“cultura” serve como atrativo. Para quem visita, uma apresentação qualquer, serve
para alimentar a memória afetiva e acrescer em pouquíssimos pontos o lastro
cultural do viajante.
Cultura
em nosso meio, creio, deve ser resultado de mobilização coletiva em torno de
algo Uma prática, um cultivo, uma celebração, um hábito, o que seja da área das
manifestações coletivas. Uma sensação de pertencimento e de participação
efetiva corre como onda motivacional entre os indivíduos. Quando esses
componentes ganham materialização e impõe-se internamente no seio de uma população,
então temos verdadeiramente um sentido amplo de cultura. O resto é apenas mais
uma das ilusórias “verdades” que nós, de entusiastas e militantes a
deslumbrados e inocentes, proferem para manterem-se vivos.
Os
pólos culturais sobrevivem, na maioria das vezes, da sangria “oficial” sobre
grupelhos artísticos e folclóricos, mantidos as duras penas pelos componentes. Sendo
estes frutos muitas vezes do esforço de abnegados que um dia, lá no passado, juntaram
cacos de memória adquiridas, via cultura oral, por laços familiares ou
comunitários ancestralísssimos, e ergueram em torno de si uma lenda mais
pessoal que coletiva. Até aí, já se disse metade do processo: a “cultura” é
paupérrima. Não em sentido de riqueza intrínseca, laborativa e antropológica,
mas na estrutura que lha dá apoio e sustentação, na organização de base e nas
políticas públicas que garantam sobrevivência.
Oriunda,
claro, dos estamentos mais instáveis sócio-economicamente de que se dá notícia,
a espécie “cultura” dos “pólos culturais” são pedras rolantes que não conseguem
firmar-se, mantendo-se e criando multiplicadores que ajudem a manter sua
mística, seu lume, suas técnicas, suas artes, sua alegria. São velas ao vento. Chama
oscilante ao sabor de tempestades tão medonhas e impenetráveis, que com poucas
rajadas podem largar ao esquecimento todo seu guarnicê de práticas afetivas.
por Edson de França
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