terça-feira, 16 de novembro de 2010

Democracia monárquica

“Eu vejo o futuro repetir o passado/
Eu vejo um museu de grandes novidades.”
(Cazuza – O tempo não pára)

A monarquia brasileira morreu de inanição faz eras, porém uma análise do quadro político brasileiro (não sei dizer se em outras democracias o mesmo acontece, mas posso falar pelo que vejo no nosso terreiro) nos revela que os hábitos da velha nobreza palaciana ainda sobrevivem. Tudo como de antanho. O velho ramerrão entre palacianos e paupérrimos súditos de vossas majestades continua vigente, mesmo que travestido de uma meicape modernosa.
Monarquia denota sucessão sanguínea. Nela, os rebentos sabem da sua condição de reis em potencial desde crianças. São os marcados, os escolhidos. Caminham pelos corredores e camarinhas dos palácios aprendendo ali, no leito das manias senhoriais, todos os desvãos do poder. O que envolve a intriga, o jogo de interesses, a boa ou má vontade do soberano sobre seus serviçais e súditos. É com esse aprendizado nas mãos que o escolhido assumirá o poder um dia.
Na nossa condição contemporânea, lideranças não são espontâneas. Alguma temporã pode até despontar por acaso, contudo, dificilmente conseguirá entrar e se manter nos panelões aristocráticos que compõem os núcleos de nossa democracia monárquica. Falta-lhes, talvez, pitadas de sangue azul nas veias, ou mesmo leves êmbolos de azul de metileno circulando pelo corpo. O espocar de lideranças por essas bandas obedece a princípios particulares. E são muito bem detectáveis para além das capitais, mesmo que este seja um principio naturalmente impregnado n’alma brasileira de Porto Alegre a Gado Bravo.
O Nordeste, não é de hoje, já teve seu condicionamento sub-desenvolvimentista soberbamente explicado pelas ações perniciosas de sua casta de políticos, nossa monarquia mirim. São as “permanências”, das quais nos deu noticias um dia o professor Gilvandro Sá Leitão Rios, catedrático em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba. Às permanências, detectadas pelo professor, ousamos denominar tão somente de “continuidades maléficas”, mesmo sob a égide inegável da “mutabilidade” que tinge a condição moderna em que vivemos. Vivemos um tempo mutante, porém sob a imperiosidade de renitentes e incômodos lugares-comuns.
Políticos que “representam” feudos, ou melhor dizendo, ao meu olhar armorial, cidades-reinos ou principados de suntuosidades e decadências, onde a ignorância, passividade e tibieza participativa da população em geral convivem com estratégias de poder de potenciais experts do poder de mando. Famílias (ou seriam clãs, famiglias?) mantém como parte do sustentáculo de seus círculos uma relação incestuosa com os poderes centrais e adjacências. Daí não importa a letra do ferro com quais elas marcam seu rebanho. Qualquer um brasão manterá sempre o mesmo modus operandi: uma continuidade que passa pela ritualística ascensão ao poder e a entrega ritual do cetro para entes preparados (?) para sucessão. Ou tão somente, para uma continuidade... de erros.

por Edson de França
Iniciamos com o texto Democracia Monárquica uma nova fase deste Blog. Além das poesias que marcaram o eixo de existência deste veículo nos últimos anos, a partir de agora ele incorporará as crônicas produzidas pelo autor e trará de volta os comentários sobre o cotidiano da mídia, da imprensa e de toda essa incrível, sofrível e, por vezes discutivel, vida e toda cultura que envolve seus (des) caminhos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Quintal no ar

Meu quintal é uma alusão periférica
Casas pálidas, amarelidão,
escombros, beira de linha,
O Campo do Rato, o queijo,
o crack

E um belo horizonte,
longe, longe, longe.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Glória Cigana (poema revisitado)

Estrelas não caem do céu.
Elas brotam do chão, vez em quando,
como flores.
São únicas, inimitáveis,
raras tão somente.

Solitárias.

A terra as retém e é-lhes estéril,
suga-lhe o sumo e o viço da entrega.

Pela perenidade de apego,
de compreensão, de seiva humana,
a hostilidade campeia ao seu redor.


Frágeis,
da natureza das flores,
em pedra sobre pedra,
apedrejando-se qual masoquistas,
artifices da inglória arte do conviver.

Caem, decerto,
mas se revigoram
e brilham sob o olhar de toda a gente.

Como místicos vagalumes, andaluzes,
ciganos da noite e do dia,
sobrevivem para o espanto geral.

Quando se vão
o amálgama luminar
de beleza e vida e cor e voz
que as definiu
mora no éter,
eternizando-as.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Tema do amor vivido

um amor chão e terra
ímpar como uma foto três por quatro
tese minha,
toda a simplicidade chique da erva daninha.

deixai o amor de céu e sonho aos poetas
(aqueles que não vivem)
nessa utopia,
nosso céu é o dia a dia.

Impulso/1997

A imargem do rio

Nos chãos onde pisou meu pai
Piso eu, agora,



Meu pai foge para a margem do rio
para pilotar jangadas frágeis.

De seu,
o sorriso menino, brincalhão,
os teréns de uma vida inteira,
a gagueira interminável
difícil de dizer "alô"
que não diz: se vai.

Nos chãos onde pisou meu pai
pisei eu, agora,



os passos estão lá,
estão aqui onde piso
e pisa meu pai comigo, consigo.

Impulso/1997

Não, não olhai apenas o campo - Dia de Bingo (poema revisitado)

dias de terra e poeira
vermelha como o sangue vertido
mulheres sãs em modelitos de antanho
jovens, new look, vitrine viva
de um tempo particular

procissão de bicicletas
num culto a velocidade e ao ruminar dos dias.

olhai, amigo,
olhai não apenas o campo desnudo
com suas distâncias a perder de vista
seus longuíssimos horizontes
parecendo desabitados.

olhai a liga humana que o compõe
que se esconde em suas dobras, caminhos,
curvas, verde ralo, mata espessa e cinza,
casebres malanjambrados e esconchos.

olhai,
olhai o vigor, a força, a beleza
e a esperança e o contentamento
dessas gentes, amigo,
também a se perder de vista.

Impulso/1997