segunda-feira, 7 de maio de 2007

Catar feijão


O poeta João Cabral de Melo Neto atentou para a nossa posição de galos "tecendo manhãs" e descobriu que "catar feijão se conjuga com escrever". As mãos de D. Zefinha, minha mãe, catando feijão pela vida afora, enfrentando as labutas, carregando filhos e ensinando-os, poeticamente, a viver, ler e escrever só fez confirmar a noção do poeta: escrever se conjuga com catar feijão. Escrever nosso caminho pela vida também é catar feijão. Joga-se no alguidar todos os grãos e lança-se fora o que boiar.
Precisa dizer mais nada, meu caro!
Com certo atraso estou postando cartum do Regis Soares documentando o fenômeno BBB. Viva o os cartuns (ou seriam charges) de rua.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Tempo da bolha de sabão (poema)

Tempo, tempo, tempo!
O que me deves? Nada?

O que realmente me dás
Ó tempo de lamúrias e lantejoulas?

Em que precipícios te beijo, ó tempo?
Em que esquinas, por entre as pálpebras, me escapas?

Talvez, talvez, talvez,
Calejado tempo,
Eu é que deva a ti.
Devo a ti o medo...
da morte, do principiar, do dessemelhante...

Medo que já não devo ter,
nem requisito o direito de domá-lo.

Devo a ti um minuto intacto do meu dia inútil.

Quem sabe, a ti, deva um segundo
um daqueles bem dispensáveis
, só ele, mais nada, de atenção
às tuas fanfarronices...

Penso, a ti, deva essa bolha
em suspensão, animada e breve.

No mais, isso aqui é só um olhar de criança

Invisíveis e transparentes

Aprendemos a cada dia alguma coisa nova. Isso é meta cotidiana de quem aceitou a “indignação” como filosofia e pedagogia de vida. Para cultivar a natureza aprendiz e, quiçá, para ensinar. Aprendi hoje com Mariana Felinto (Caros Amigos, n.121, abr/2007) o triste e neologísmico verbo "auto-sabotar". Uma auto-sabotagem social de jovens que largam a possibilidade que o estudo ainda poderia permitir, para render-se ao crime (pela oferta de facilidade), a gravidez precoce (pela falta de análise do que isso representa de atraso na vida) e ao telemarketing (pela promessa de emprego, oficiallizado, fácil). Todos os caminhos mostram-se espinhosos e falsos. Levam-nos, sem dó, à sub-vida, a invisibilidade e a transparência...

"Chapas" transparentes

Leio matéria do amigo, ex-aluno e irmão, Murilo Santos (mentor do jornal Cotidiano), e gosto quando ele qualifica os “chapas” do mercado de Patos de “transparentes”. Os “não-vistos”, os não percebidos, os que, mesmo prestando um serviço importante para a vida da comunidade, não recebem a atenção ou o respeito devido. Na melhor das hipóteses são tachados de vagabundos, inúteis etc.. Os “chapeados”, se é-nos permitido tratar sua situação como felicidade, tem o mérito de uma existência real, perceptível. Representam um “monumento vivo” e andante, a dureza da vida, a incompreensão humana e a capacidade egoísta de invisibilizar o semelhante que todos nós somos portadores. No mínimo, uma denúncia.

Transparentes da nova era

A vida moderna está tratando de criar outros “invisíveis” ou “transparentes”, sob a aparência de trabalhadores da "nova era". A escritora Mariana Felinto nos põe frente a frente com alguns invisíveis contemporâneos: os operadores de telemarketing. Esses, infelizmente, na maioria jovens, são realmente invisíveis. Levados pela necessidade, são tragados pelos braços espoliadores das corporações inatingíveis e compõe o exercito da escravidão pós-moderna. Aceitos profusamente pelo mercado, que desconta até a sua fealdade, eles findam presos às armadilhas da máquina de aniquilamento de ascensões sociais. Na era da virtualidade, a indignação tem que ir além...

Invisibilidade by modernidade

“O telemarketing vem mesmo operando um verdadeiro “milagre” de recrutamento de jovens entre as classes baixas. E, como é tudo impessoal ao telefone do jovem-máquina amestrado no arremedo, como ninguém vê ninguém, o telemarketing conseguiu inclusive a façanha de solucionar o problema da “boa aparência” e do preconceito que operam contra jovens pobres que procuram emprego. O telemarketing aceita com facilidade negros, gays, gordos etc. pelo simples fato de poder ocultá-los da sociedade!” Mariana Felinto (Caros Amigos, n.121, abr/2007)